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[9 de Julho] Friedenreich e a Revolução de 1932

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9/07/13

Antes de começar a contar a história de Friedenreich e de outros atletas que foram ao campo de batalha na Revolução Constitucionalista de 1932, neste dia 9 de Julho – feriado em São Paulo – façamos uma pequena introdução histórica…

Em 1929, em meio à República Velha, os paulistas romperam sua aliança política com os mineiros, dando fim à famosa política do café-com-leite e lançaram um candidato próprio à presidência da República, o governante do estado de São Paulo, Júlio Prestes. No dia 1º de maio de 1930, Júlio Prestes venceu as eleições. No entanto, o candidato paulista não tomou posse de seu mandato. A 24 de outubro de 1930, um movimento armado composto por Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul instaurou um golpe de estado, o famoso Golpe de 1930. Júlio Prestes foi exilado e Getúlio Vargas tomou posse do chamado Governo Provisório. As primeiras grandes ações de Vargas foram a invalidação da Constituição de 1891 e a imposição de interventores sob sua escolha para governar os estados, tirando-lhes a autonomia antes garantida.

O povo paulista, de imediato, mostrou-se contrário ao governo de Getúlio Vargas e suas ações. Os paulistas exigiam que se promulgasse uma nova Constituição, que os estados voltassem a ter autonomia e que novas eleições fossem convocadas. A essa altura, não havia Congresso Nacional, Assembleia Legislativa e Câmaras Municipais. Após dois anos de governo Vargas e sem que se percebesse uma movimentação por parte do presidente da República nesse sentido, os paulistas começaram a ir às ruas para protestar. Em 23 de maio de 1932 – nome de uma das mais importantes vias da cidade de São Paulo – quatro jovens estudantes foram alvejados e mortos na Praça da República, centro da cidade, por partidários de Getúlio Vargas. O famoso M.M.D.C., iniciais dos sobrenomes dos jovens. Eram eles Mario Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Drausio Marcondes de Sousa e Antonio Camargo de Andrade. Os jovens estão sepultados no mausoléu do Obelisco do Ibirapuera, que homenageia os heróis de 1932.

Tal acontecimento foi crucial para que o povo paulista, definitivamente, se rebelasse. A 9 de julho de 1932 – atualmente dia de feriado em São Paulo – teve início a Revolução Constitucionalista. São Paulo entrou na luta armada com o apoio de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Porém, com articulações de bastidores, Vargas reconquistou o apoio dos mineiros e dos gaúchos, restando a São Paulo apenas o apoio parcial do Mato Grosso. Foi lançada a Junta Revolucionária, na qual cerca de 200 mil voluntários se alistaram, tendo cerca de 60 mil deles ido a campo, tomando frente na batalha armada. Os paulistas doavam seus bens, principalmente ouro, para que se arrecadassem fundos para a Revolução. Com uma forte publicidade por parte de Vargas, São Paulo se viu contra o restante da Federação, já que era adjetivado por todos os lados de separatista.

Entre os paulistas que se alistaram para a Revolução Constitucionalista de 1932 incluíam-se muitos atletas, cerca de 1.500, vários deles jogadores de futebol. Dentre esses jogadores estava Arthur Friedenreich, talvez o primeiro jogador fora-de-série do futebol brasileiro. Friedenreich nasceu em São Paulo, no dia 18 de julho de 1892, filho de pai alemão e de mãe ex-escrava que tiveram de deixar o Rio Grande do Sul após o fim da escravidão, que culminou com uma crise nas grandes fazendas gaúchas, em busca de melhor sorte na capital paulista. O jogador começou a se destacar no futebol paulista muito cedo, a começar pelo Germânia (atual Pinheiros), Mackenzie, Ypiranga e Paulistano. Friedenreich quebrava os estigmas de preconceito da época. Fruto mestiço do casamento entre um europeu e uma escrava, o jogador de pele morena, na época chamado de mulato, era respeitado e admirado pela elite paulista.

No futebol, muitos dizem que Friedenreich foi o criador da ginga brasileira e o introdutor dos dribles curtos. No ano de 1919, Friedenreich foi convocado pela Seleção Brasileira, cuja confederação havia sido fundada apenas 5 anos antes. Naquela Copa América disputada inteiramente no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro – então chamada de Campeonato Sul-Americano – o Brasil começou a fazer história no futebol. Com duas vitórias e um empate na fase classificatória, na qual enfrentou Argentina, Chile e Uruguai, o Brasil chegou à final contra o último. Em uma final de 150 minutos, com duas prorrogações, o Brasil derrotou aquela seleção que seria bi-campeã olímpica logo em seguida, e mais a frente bi-campeã mundial, por 1 a 0 no final da segunda prorrogação, com gol de Friedenreich. Foi aí que ganhou, dos uruguaios, o apelido de El Tigre.

Friedenreich ainda jogou em vários clubes como Flamengo, Santos e São Paulo. O atleta só encerraria sua carreira em 1935, mas antes disso deixou o futebol de lado, sua gloriosa carreira em segundo plano, para engajar-se na Revolução Constitucionalista de 1932. Friedenreich doou vários de seus troféus e medalhas e alistou-se para ir ao campo de batalha. E assim se fez. O jogador colocou sua carreira e sua vida em risco para lutar por suas convicções. O futebol já era, na época, o esporte mais popular do Brasil, já carregava grandes públicos. Com sua enorme fama, Friedenreich impulsionou o alistamento de vários outros atletas. O primeiro ídolo do futebol nacional chegou a ir às rádios algumas vezes para convocar seus colegas de profissão a irem ao front de batalha. Muitos atletas abriram mão das Olimpíadas de Los Angeles, em 1932, para irem à Revolução. Como os irmãos Rheder, por exemplo, destaques desse engajamento esportivo na causa paulista e brasileira, expoentes do atletismo nacional à época.

Estima-se que os atletas tiveram apenas 2 semanas de preparação militar para irem ao campo de batalha, mais precisamente no dia 2 de agosto de 1932. Historiadores afirmam que cerca de 800 atletas foram deslocados para Eleutério, fronteira com Minas Gerais. Outros 600 foram enviados para a região da Mogiana, também fronteira com território mineiro. Segundo os jornais da época, os atletas mal chegaram a seus fronts de batalha e já se depararam com fogo cruzado. Com poucas munições, passaram cerca de um mês abaixo de fogo inimigo. Muitos esportistas foram mortos durante a Revolução, não se sabe ao certo quantos.

Uma falsa notícia abalou o país e principalmente o futebol nacional. Os jornais chegaram a estampar em suas capas notícias sobre a morte de Friedenreich. No entanto, ele estava vivo e acabou sendo até condecorado pelas forças militares devido aos seus atos de bravura. Fridenreich ficou no campo de batalha até o fim da Revolução, um combate que durou 87 dias. O jogador só deixou as trincheiras após a rendição dos exércitos constitucionalistas com uma negociação de paz junto às forças federais.

Muitos historiadores afirmam que, em São Paulo, a participação dos atletas na Revolução Constitucionalista de 1932 auxiliou em uma diminuição considerável do preconceito no futebol. Todo tipo de atletas, das mais variadas raças, cores e credos foram ao campo de batalha e voltaram sob a admiração do povo paulista. Assim como é sabido que a inserção das mulheres nas iniciativas sociais e civis teve na Revolução um grande impulso, o preconceito racial no esporte e na sociedade, pelo menos em São Paulo, guinou-se à uma considerável melhora.

Revolução Constitucionalista de 1932 teve fim no dia 2 de outubro daquele ano. Os líderes paulistas foram presos. Historiadores afirmam que os constitucionalistas contavam com 10 mil combatentes, 4 aviões e 5 trens blindados em sua Força Pública Paulista. Havia também cerca de 40 mil combatentes voluntários, num total de 200 mil alistados. Já as Forças Armadas, sob o comando de Getúlio Vargas, tinha a sua disposição a totalidade do exército, da marinha e da aeronáutica, sendo que cerca de 100 mil homens foram à batalha.

Os paulistas se renderam, mas conseguiram aquilo que queriam. No fundo, a Revolução Constitucionalista de 1932 alcançou os objetivos que desejava, acabou saindo-se vitoriosa com a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte em 1933 e com a promulgação de uma nova Constituição em 1934. Há quem diga que se não fosse a Revolução de 1932, capitaneada pelos paulistas e abraçada pelos esportistas, muito provavelmente esses objetivos não seriam alcançados. Friedenreich, que faleceu aos 77 anos em 1969, e muitos outros atletas escreveram seu nome não só na história do esporte, mas também na história do país, lutando pela liberdade e pela cidadania.

Por Luiz Nascimento

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3 comentários

  1. Giovani H. Freitas disse:

    Bom texto. Ótima história.
    Parabéns!!
    Curti o El Tigre.

    Saudações carvoeiras.

    [Reply]

  2. allan ataide disse:

    texto ridiculo, muinto grande e não serve para nada

    [Reply]

  3. José marques disse:

    Luis veja só ,segundo muitos pesquisadores ele não era filho de escrava mas sim uma moça professora que foi criada como “agregada” da familia de Fried .Entre estes há o escritor autor da melhor biografia de Fried , o Duarte.

    [Reply]

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