O futebol certamente é o esporte que detêm, em sua essência, o poder de despertar diversas emoções. Um gol pode ser motivo de alegrias ou tristezas. Uma vitória é capaz de fazer valer o amor e o ódio. Não é a toa que muitas histórias envolvendo este fascinante esporte são contadas a recontadas ao longo dos anos.
Dentre tantas passagens envolvendo jogadores e clubes, seguramente, uma das mais terríveis ocorreu na década de 40 – os jogadores do Dínamo de Kiev jogaram uma partida sabendo que seriam assassinados caso conquistassem a vitória e mesmo assim decidiram vencer.
Com sede profissional em Kiev, capital da Ucrânia, o clube foi fundado em 1927 e passou toda a sua história entre as principais equipes da liga soviética e posteriormente ucraniana. Atualmente, participa do Campeonato Ucraniano de Futebol. Conquistou vinte campeonatos regionais, nove Copas da Ucrânia, uma Supercopa Européia e duas Taças dos Clubes Vencedores de Taças. Além disso, conquistou treze Campeonatos Soviéticos, nove Copas e três Supercopas Soviéticas, tornando-se o clube mais bem-sucedido da história liga soviética. A casa do Dínamo é o Estádio Dínamo Lobanovsky de 16.000 lugares, com jogos de maior importância disputados no Estádio Olímpico de Kiev.
A impressionante história destes heróis tem início com a ocupação de Kiev pelas tropas nazistas, em 19 de setembro de 1941. Os homens sob o comando de Adolf Hitler aplicaram um regime impiedoso, arrasando o país. Kiev teve a maioria de seus habitantes expulsos de suas casas e transformados em prisioneiros de guerra. Por não ter permissão para trabalhar e nem ocupar as residências, grande parte destas pessoas ficava vagando pelas ruas em situação de indigência.
Entre estes novos mendigos, doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido goleiro do Dínamo. O clube foi proibido de exercer suas atividades após a ocupação nazista e todos os seus atletas ficaram em situação semelhante à do goleiro. As coisas começaram a mudar devido a Josef Kordik, torcedor fanático do Dínamo de Kiev.
Kordik era padeiro em Kiev e não era perseguido pelos nazistas por ser alemão. Caminhando pelas ruas durante uma tarde, o padeiro ficou surpreso ao se deparar com um mendigo cujos traços lhe eram familiares. Ao se aproximar, pode perceber que se tratava de seu grande ídolo – o gigante Trusevich. Mesmo correndo o risco de ser pego pelos nazistas, Kordik cometeu um ato ilegal ao contratar o goleiro para trabalhar em sua padaria. Para Kordik, a emoção de manter relações de amizade com a estrela de seu clube do coração era um risco que valia a pena.
Trusevich passou então a aprender o ofício de Kordik, amassando pães e fazendo bolos e outros quitutes. A convivência entre os dois era muito amigável e as conversas duravam até altas horas da noite. Grande parte das vezes o papo girava em torno de futebol. As coisas duraram dessa forma por um bom tempo, até o padeiro ter a idéia de salvar o restante dos jogadores e reunir o resto do time.
Kordik propôs ao goleiro que fosse à busca de seus companheiros de clube ao invés de passar o dia amassando pães. Trusevich continuaria recebendo seu salário normalmente. O arqueiro passou a percorrer o que restara de uma Kiev devastada e encontrou, entre feridos e mendigos, todos seus amigos do Dínamo, além de alguns jogadores rivais da Lokomotiv, de Moscou. Resgatados, os jogadores foram recebidos por Kordik com trabalho em sua padaria, que passou a ser esconderijo de uma equipe completa de futebol.
Alentados por seu protetor, os jogadores decidiram voltar a jogar, já que era a única coisa que realmente sabiam fazer. Muitos haviam perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler e o futebol era o último resquício de suas vidas anteriores. Como o Dínamo estava proibido de atuar, um novo nome foi criado para aquela equipe em específico – assim nasceu o FC Start.
Através do contato de Kordik com os alemães, o FC Start passou a desafiar equipes de soldados inimigos. A primeira partida ocorreu em junho de 1942 e os jogadores da padaria venceram por 7×2, mesmo cansados por terem trabalhado durante toda a noite. Depois vieram as vitórias por 6×2 sobre uma guarnição húngara e 11×0 sobre uma equipe romena.
As coisas começaram a ficar preocupantes quando golearam por 6×2 , em 17 de julho de 1942, uma equipe do exército alemão, formada pelo III Reich.
Preocupados com a crescente fama de um grupo de empregados de uma padaria, os nazistas buscaram uma equipe da Hungria, o MSG, com a missão de derrotá-los. O FC Start goleou o time húngaro por 5×1 e ganhou, na revanche, venceu por um placar de 3×2.
O futebol era um dos instrumentos utilizados por Hitler para propagar a superioridade alemã. No dia 06 de agosto, convencidos de sua dominação, os nazistas prepararam um time formado por jogadores de clubes que na época eram tradicionais na Alemanha, como a Luftwafle e o Flakelf.
Para surpresa dos alemães, o FC Start venceu por 5×1, mesmo com a falta de esportividade do adversário, que apelou para jogadas violentas dentro de campo. Com a queda do time de Hitler diante dos ex-jogadores do Dínamo e com a fama do FC Start entre o sofrido povo ucraniano, os nazistas descobriram as manobras do padeiro.
Dessa forma, uma ordem vinda de Berlim ordenava que os soldados alemães acabassem com todos eles, inclusive com o padeiro Josef Kordik. Entretanto, os hierarcas regionais nazistas não se contentaram com isso, pois não queriam que a derrota alemã ficasse marcada como a última imagem caso aqueles jogadores fossem assassinados. Era preciso formar um time que pudesse vencer o FC Start para não perpetuar a derrota nazista.
Com um clima de grande pressão a ameaças, anunciou-se a revanche para o dia 09 de agosto, no estádio Zenit, que ficou repleto de torcedores. Antes do início da partida, um oficial da SS entrou no vestiário e em Russo, anunciou que seria o árbitro da partida e que os jogadores deveriam, ao entrar em campo, realizar a saudação nazista, com o braço levantado.
Já no campo, os jogadores do Start (camisa vermelha e calção branco) levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: - “Heil Hitler!”, gritaram – “Fizculthura!”, uma expressão soviética que proclamava a cultura física.
Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro gol, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1. Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:
- “Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo”. Ameaçou outro oficial da SS.
Os jogadores, com medo, propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Pesou em sua decisão o massacre de suas famílias e os crimes cometidos contra aquela gente sofrida que gritava por eles nas arquibancadas, de maneira desesperada. Decidiram, então, jogar pra vencer.
O que se viu em campo foi uma aula de futebol, um baile aplicado nos nazistas. No final da partida, quando ganhavam por 5×3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão e lhe aplicou um drible deixando-o no chão. Ao ficar em frente ao gol aberto, sem defesa, enquanto todos esperavam o momento certo para soltar o grito de gol, o atacante deu meia volta e chutou a bola para o centro do gramado. Um gesto de desprezo e deboche, de resistência ao projeto de superioridade total dos nazistas. Não é preciso mencionar que este gesto de humilhação ao dominador alemão fez com que o estádio viesse abaixo.
Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o FC Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Entretanto, o plano já estava desenhado: depois dessa última partida, a Gestapo visitou a padaria.
O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Kordik, o padeiro. Os outros presos foram enviados para os campos de concentração de Siretz. Ali mataram brutalmente a Kuzmenko, Klimenko e o goleiro Trusevich, que foi assassinado com a camisa do FC Start. Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram. Ficaram escondidos até a libertação de Kiev em novembro de 1943. Todo o resto da equipe foi torturada até a morte.
Ainda hoje os presentes no estádio naquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dínamo. Nas escadarias do clube ainda conserva-se um monumento em homenagem aos heróis do FC Start, o time que ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.
Os jogadores do FC Start ainda hoje são cultuados na Ucrânia como heróis da pátria e seu exemplo de luta e coragem é ensinado às crianças nas salas de aula.
O cineasta John Huston inspirou-se nesta história incrível para rodar seu filme “Fuga para a vitória” (Escape to Victory) de 1982. Grandes nomes do cinema participaram do filme, como Michael Caine, Sylvester Stallone e Max Von Sydow. O filme chamou grande atenção pela participação de algumas estrelas do futebol, como Bobby Moore, Osvaldo Ardiles, Kazimierz Deyna e o Rei do futebol, Pelé. John Huston fez, em seu filme, o que o destino não foi capaz de realizar: O cineasta salvou os heróis.
OBS* Após o término da guerra e a derrota dos nazistas, o Start voltou a se chamar Dínamo de Kiev. Uma estátua foi construída em homenagem aos quatro jogadores mortos. Mais detalhes sobre essa emocionante história podem ser encontrados no livro “Futebol e Guerra”, escrito pelo jornalista britânico Andy Dougan, publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar. Também há relatos sobre o assunto no ótimo livro “Dança dos Deuses – Futebol, Sociedade e Cultura”, do historiador Hilário Franco Júnior.
Documentação:
Reportagem de Juan Villoro, contando um pouco da historia de Nikolai Trusevich. O vídeo tem um áudio ruim, mas vale a pena o esforço para entender a narrativa em espanhol:
A única foto que se conserva da heróica equipe do Dinamo e o nome de seus jogadores:
Goncharenko e Sviridovsky, os únicos sobreviventes, junto ao monumento que recorda a seus colegas:
No estádio Zenit a placa do monumento diz: “Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista”:
Poster propaganda da partida de revanche, na qual os alemães foram humilhados dentro de campo:
Foonte das Imagens – Site Oficial do Dínamo de Kiev





October 21st, 2010 at 1:08 am
Parabens ao Thiago que trouxe essa história, a todos nós de uma forma que nos emociona, saber que eles preferiram transformar, o futebol em uma guerra silenciosa e que aflinge até os dias de hoje, o futebol contra o racismo!
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October 21st, 2010 at 1:18 am
História fantástica, Tiago. Triste, mas espetacular. O que o amor por um time não faz?
Parabéns poir recordá-la.
Forte abraço.
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October 21st, 2010 at 8:20 am
Essa história é realmente fantástica! Daquelas que explicam claramente porque amamos o futebol. Um esporte que nos proporciona essa histórias fantásticas!
Fiquei emocionado da primeira vez q li o texto, ainda antes de te enviar a sugestão, e vejo agora que além de publicá-lo, vc fez uma pesquisa perfeita! Parabéns mesmo, vc tem feito dessa coluna a minha preferida! Até mais q a minha, hehe…
E que orgulho devem sentor os torcedores do Dinamo de Kiev…
Abraços
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Tiago Buckowsky Reply:
October 21st, 2010 at 1:39 pm
@Ricardo Gioia, Valeu Ricardo. Eu havia lido pouca coisa dessa história e quando você me mandou a sugestão, fui atrás de mais coisas. Meu texto não foge muito daquele que você me mandou, até porque a história é magnífica. Interessante é que há poucas fontes. Achei apenas dois livros em portiguês que citam esta história ! Na Ucrânia, esse fato é matéria escolar, já que a atitude dos jogadores de FC Start representa claramente a resistência de um povo contra a tirania de Hitler. Valeu !
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October 22nd, 2010 at 12:13 pm
Sério. Um dos melhores posts que já vi por aqui.
Eu fiquei muito emocionado.
Eu sabia por cima dessa história mas não com tantos detalhes.
Acho que todos os times do mundo deveriam por um dia no ano fazer uma saudação a memoria desse time.
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Tiago Buckowsky Reply:
October 22nd, 2010 at 12:16 pm
@Anderson “Mené” Vieira, Com certeza, uma história que deveria constar nos livros didáticos não apenas das crianças ucranianas ! Uma história de resistência à imposição de poder muito particular. !
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February 8th, 2011 at 11:59 pm
Já conhecia. Uma das mais belas histórias que o futebol já escreveu… em que pese ser trágica.
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August 6th, 2011 at 11:19 am
olá , gostaria de saber onde baixar o filme sobre o assunto .
desde ja agradeço
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August 6th, 2011 at 12:18 pm
Eu gostei muito dessa historia.Um acontecimento real né, e acho que eles foram uns herois do futebol, nao preferiram morrer e nao entregaram o jogo.Parabens a esses herois.
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December 12th, 2011 at 11:09 pm
Tem um filme chamado “A partida da morte” baseado nessa história. Estou pesquisando e se alguém localizar onde se pode conseguir, por favor, avisem.
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