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Brasil X Zimbábue – o uso político do futebol

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3/06/10

“Futebol não é apenas um simples jogo. É uma arma da Revolução” (Ernesto Che Guevara)

O Zimbábue, país que recebeu a Seleção Brasileira para um amistoso, vive uma crise econômica que castiga sua população. A taxa de inflação é a maior do planeta, com estatísticas oficias, em novembro de 2008, de 78 bilhões por cento. Depois disso, o governo nem se deu ao trabalho de contar. Já houve circulação de uma nota de 100 bilhões de dólares zimbabuanos.

A hiper-inflação vem destruindo a economia local e arrasando o setor produtivo. Nos últimos anos o Zimbábue tem diminuído vertiginosamente sua produção agrícola. Na tentativa de conter a crise, uma medida governamental foi criada para congelar os preços dos produtos, o que causou desabastecimento. Conseqüentemente, houve um fortalecimento do contrabando, culminando em prisões de comerciantes contrários à medida.

A agravada crise econômica reflete a qualidade de vida da população. Os baixos índices sociais do país, como a taxa de desemprego a 88%, indicam a pobreza da maioria dos habitantes, além de escassez de combustíveis, alimentos, remédios e moedas estrangeiras. Para se ter idéia da crise que se instalou no país, uma nota de dois dólares zimbabuanos tem apenas valor numismático.

O atual presidente, Robert Mugabe, foi eleito como primeiro-ministro em 1980 e tornou-se presidente após mudança constitucional em 1987. Mugabe tentou apoio político revertendo uma antiga legislação colonial de posse da terra com uma política muito criticada. Entre suas principais medidas estão a expropriação de fazendas pertencentes à elite branca com intuito de assentar negros. Tal política fez com que houvesse grave diminuição na produção agrícola, agravando a situação econômica do país.

Interessante é saber que a CBF vai embolsar 1,8 milhões de dólares para enfrentar a Seleção Zimbabuana. Segundo o presidente do país, não houve uso de dinheiro público para trazer a mais badalada seleção de futebol para um evento no país. O dinheiro teria vindo de investimento privado em patrocínio feito por três diferentes empresas. Tudo isso em um país que tem uma expectativa de vida de 42 anos e que sofre na luta contra doenças como a cólera e a AIDS.

É evidente que a Seleção de Dunga está sendo usada como instrumento político para que o governo local possa divulgar uma boa imagem do país. Papel vergonhoso para a CBF, que fatura uma quantia milionária em um país que tem dificuldades para conseguir comida. Dinheiro que nem faria falta para uma entidade que fatura mais de 200 milhões de reais com seus patrocinadores.

Futebol e Política


O uso político do futebol não é novidade na história do esporte. Seja por regimes autoritários ou democráticos, o futebol sempre foi instrumento de mobilização das massas para determinados anseios políticos. No seu início, na Inglaterra, senhores de pequenas cidades apoiavam financeiramente o time de sua fábrica para reforçar seu prestígio social, ganhando assim o reconhecimento de seus empregados.

Já no século XX, com maior intensidade, a política institucional se apropria do futebol. Políticos de diferentes correntes ideológicas percebem a imensa capacidade que o futebol tem de mobilizar sentimentos coletivos – sejam eles regionais ou nacionais.

Para citar alguns exemplos, temos a Copa da Inglaterra, que desde 1914 tem a presença do Rei (ou Rainha) no jogo final, entregando o troféu aos vencedores. A mesma postura tem o governo da República Francesa desde 1927. Na Espanha, o mesmo tipo de competição teve sua nomenclatura modificada conforme a forma de governo: de 1902 a 1930 foi chamada de Copa do Rei; de 1931 a 1936 recebeu o nome de Copa do Presidente da República e de 1939 a 1975 foi chamada de Copa do Generalíssimo. Voltou a ser chamada de Copa do Rei após a democratização do País.

No Brasil, A propaganda dos governos militares se aproveitou de acontecimentos esportivos como o milésimo gol de Pelé e a vitória da Seleção Brasileira na Copa de 1970. Depois do milésimo gol, marcado em novembro de 1969, Pelé desfilou em carro aberto em Brasília e foi recebido pelo presidente Médici, que lhe concedeu uma medalha  e o título de comendador. Os vencedores da Copa do Mundo de 1970 receberam tratamento semelhante.

Muitos estadistas apoiaram diretamente alguns clubes, vinculando suas conquistas com a situação política implantada pelo seu plano de governo e tirando proveito político disso – Desta maneira agiu Hitler com o Schalke 04 e Mussolini com a Roma. O caso mais interessante talvez seja de Francisco Franco, da Espanha, com seu apoio ao Real Madrid. Os adeptos do Centralismo Castelhano torciam pelo clube Madrileno enquanto o Barcelona, maior rival, reunia torcedores com postura contrária ao regime de Franco e que apoiavam a autonomia das culturas regionais. Lembremos que Barcelona fica na região da Catalunha e a cultura catalã era um dos alvos da política ditatorial de Franco.

Existem inúmeros exemplos neste sentido, mas o importante a destacar é que, da forma como faz hoje o governo do Zimbábue, a concepção política do futebol não é um acontecimento atual. As características do esporte e a mobilização de contingente humano que ele provoca fazem com que regimes se apropriem de seus elementos para dele fazer uso conforme suas conveniências. Isso ocorre por saberem os detentores do poder político de que a grande maioria dos torcedores vive o futebol apenas de maneira emocional. Sensações são fundamentais neste esporte. Mas é preciso racionalizá-lo para entender um pouco além daquilo que acontece dentro das quatro linhas.

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7 comentários

  1. Vinicius Vidal disse:

    Excelente observação e análise. Não achei nada legal esse amistodo da seleção da CBF, mas a gte já espera esse tipo de comportamento deles.

    Aliás alguém precisa citar tbém o ato do Michel Bastos batendo continência, lógico q ninguém sabe pq ou pra quem foi, mas se foi protesto esse jogador ganhou minha simpatia.

    [Reply]

    Fernando Cury Reply:

    @Vinicius Vidal, acho que se tivesse sido um protesto, estaríamos em crise diplomática nesse momento! Barato não ficaria. eheheh…

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  2. Anderson Vieira disse:

    Mandou muito bem no post meu velho.

    aliás muito infeliz a comemoração do no sso lateral no primeiro gol. Ele não fez por mal, mas foi infeliz.

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    Tiago Buckowsky Reply:

    @Anderson Vieira, O Michel Bastos bateu continência pro Dunga, se não me engano, sem a menor intenção política !

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  3. Fernando Cury disse:

    Tem toda razão.

    E guardadas as devidas proporções, isso está acontecendo agora no Brasil com as preparações para a Copa de 2014. Tem gente que acredita nos benefícios que esse evento pode trazer pro país (empregos e etc), mas tem gente que acha ser um grande furo para se super-faturar obras e afins. Em se tratando de Brasil, tenho uma quedinha pela segunda opção… ehehe.

    Abs! Belo artigo!!!

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    Tiago Buckowsky Reply:

    @Fernando Cury, Bela observação, Big Panda. Aliás, este é o tema do próximo post desta coluna.

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  4. Gabriel Pereira Pezzini disse:

    O uso político do futebol, e do esporte em geral, não é realmente nenhuma novidade. Há muitas histórias curiosas sobre isso.

    Na Itália de Mussolini, os Fascistas eram a início contra o futebol, chegando a construir um esporte, a Volata, para substituir os jogos mais populares na época, considerados “antipatrióticos” por serem britânicos. A tentativa naufragou, toda a literatura sobre o caso foi suprimida dos anais do Partido e em 1934 o Duce topou sediar a Copa, que a Itália ganhou. No final, a Volata foi mais prejudicial ao rugby que ao futebol em si.

    A filosofia de profissionalismo foi talvez a grande impulsionadora do futebol como um esporte de massas global: hoje pensamos exatamente o contrário, que isso trouxe o “monstro capitalista” ao esporte, mas a disputa no século XIX era bem adversa: o amadorismo era promovido pelas classes superiores, por carregar mais espírito desportivo, de competir por competir, sem dinheiro no meio, e também como forma de excluir a massa proletária, que tinha jornadas de trabalho de 70 horas semanais ou mais. Os trabalhadores queriam a profissionalização do esporte, pois assim poderiam ser pagos pelo tempo de trabalho perdido.

    E só um adendo: já faz um tempinho que a hiperinflação acabou no Zimbábue. Eles adotaram o dólar americano.

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