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Futebol é uma Profusão de Cores

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15/09/10

O futebol é um esporte caracterizado pela profusão de cores. Já dizia o antigo locutor, cujo nome não me lembro agora, que “o gramado é verde, a bola é branca e a torcida é multicolorida.”

As cores não são elementos meramente decorativos. Elas constituem toda sacralidade existente na cerimônia de uma partida. Apenas para citar exemplos das maiores rivalidades existentes no futebol brasileiro – tente encontrar um fanático torcedor colorado trajado em panos azuis ou um gremista doente valendo-se da cor vermelha para compor sua vestimenta; Experimente dar de presente àquele seu amigo da Gaviões da Fiel uma camisa verde. Para o torcedor, as cores representativas de seu clube do coração são sagradas e as cores rivais são profanadas sem o menor pudor.

A escolha de cores, em qualquer cultura, responde a certas condições históricas. No futebol não é diferente – a escolha de cores é elemento de grande importância na análise antropológica deste esporte.

Nas primeiras décadas – falamos aqui do final do Século XIX e início do Século XX – o futebol era praticado, na maioria das vezes, por uma elite privilegiada socialmente. Apenas duas cores eram consideradas moralmente aceitáveis – tudo que tocava o corpo deveria ser imaculado, representar pureza. Portanto a cor escolhida foi o branco. Tudo que recobria externamente o corpo dos personagens deveria representar nobreza e dignidade, portanto, escuro.

Não à toa que surge, neste período, inúmeras equipes de camisas alvinegras. Apenas para citar como exemplo – Notts Country (1862); Acadêmica de Coimbra (1876); Grimsby Town (1878); Newcastle (1882), Udinese (1896); Juventus (1897); Ascoli (1898); Borussia Monchengladbach (1900); Olímpia do Paraguai (1902); Wanderers de Montevidéu (1902); Freiburg (1904); Siena (1904); Botafogo (1904); Atlético-MG (1908); Corinthians (1910) que tinha o uniforme bege e acabou adotando o branco, pois o bege desbotava e o clube não tinha dinheiro para reposição de suas vestes, e Santos (1912), que surgiu com uniforme azul, branco e dourado, mas devido à dificuldade de compor um uniforme com estas cores, adotou o branco e o preto.

Considerada aparentada ao preto, outra cor sóbria também foi usada pelos clubes mais antigos. O Wanderers de Montevidéu teve em sua primeira camisa, em 1902, listras verticais brancas e azuis. A partir de 1903 passou a adotar listras brancas e negras. Na função de sucedâneo do negro, o azul aparece junto ao branco nos uniformes do Sheffield Wednesday (1867), do West Brom (1878), do Porto (1893), do Alianza de Lima (Peru, 1901), do Racing de Buenos Aires (1903), do São José de Porto Alegre (1913) e do Avaí (Florianópolis, SC, 1923). Muitas vezes o azul foi associado ao preto, como na camisa do Atalanta (1907) e da Internazionale (1908).

Na maior parte dos casos, as associações do branco com o preto ou com o azul aparecem nas camisas de clubes de futebol em listras verticais. Trata-se de uma recuperação de valores muito recente – entre os séculos XII e XVIII, a sociedade cristã ocidental considerava tecidos listrados uma marca vinculada à figura diabólica. A partir do século XIX, mudanças sócio-culturais inverteram essa apreciação, passando a atribuir valores positivos às listras.

Raros são os casos de camisas com faixas diagonais, caso do Vasco da Gama (1898) e da Ponte Preta (1900). Algumas vezes, a divisão vertical da camisa é feita em duas metades, como no uniforme do Blackburn Rovers (1875) e do Pachuca do México (1910). Alguns clubes optaram por estampar em seus uniformes quatro grandes quadrados. Escolha feita por Bristol Rovers (1883) e Boa Vista de Portugal (1903). Listras horizontais são mais raras que as verticais – caso do Reading (1871) e do Queen`s Park Rangers (1882).

Equipes tradicionais como o Benfica (1904) optaram por outras cores. No caso da equipe portuguesa, a escolha da cor vermelha se deu pelo fato da cidade de Lisboa já possuir um clube com uniforme de listras alvinegras (Clube Internacional de Futebol – fundado em 1902).

Na América Latina há uma maior diversificação cromática justamente por ser uma região que sofreu menor influência da Reforma Protestante e da Revolução Industrial, além de seu próprio legado cultural indígena e africano. Mesmo assim, certo puritanismo cromático ainda se fazia presente. Na Europa, a partir da década de 1950 é que a policromia desenvolve-se no futebol europeu, devido às mudanças culturais provocadas após a Segunda Guerra Mundial.

Devido a esta lógica cromática, por décadas o árbitro vestiu-se apenas de negro. A cor de sua roupa acabava revelando, como no juiz e no policial, sua autoridade. Para exercê-la, o arbitro passa a usar cartões e suas cores prolongavam um simbolismo cromático muito antigo – desde a Idade Média o vermelho é relacionado ao pecado, associado à maçã ingerida indevidamente no Éden. Também é relacionado com o crime, por associação com o sangue derramado. Ainda hoje, é a cor da proibição, como na sinalização de trânsito. O Amarelo seria como um vermelho desbotado, degradado, como uma tonalidade anterior à vermelha. Não foi à toa que o uso de cartões para a punição de certas jogadas iniciou-se em 1970, na primeira Copa do Mundo televisionada em cores.

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6 comentários

  1. Marcela Semler disse:

    Sou uma pecadora fanática então… kkkkkkkkkkkkk
    Dá-lhe o VERMELHÃO do INTERRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR =P

    Maravilhoso texto!!!!

    Parabéns!!!

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  2. Douglas "Fanny" Webber disse:

    Curti o texto afú. Principalmente por citar o São José de Porto Alegre (Dalhé Zeca!) do qual defendi as cores por uma temporada.

    Fica a dica de prepar um sobre times tricolores – não muito a história e sim porque das cores e alguma explicação mais certa, acho interessante porque muita gente não sabe porque tal time é tricolor.

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    Tiago Buckowsky Reply:

    @Douglas “Fanny” Webber, Esse post ia ficar mais longo, mas a pesquisa que fiz sobre os times tricolores ainda é insuficiente. Mas a pesquisa está sendo feita. Brevemente teremos um post por qui sobre o assunto !

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  3. Charys disse:

    E o verde? E o verde? E o verde? E o verde? E o verde? Quando entra na pesquisa?

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    Tiago Buckowsky Reply:

    @Charys, Está difícil achar muita coisa sobre o verde. Mas o pouco que achei mostra que o uso dessa cor nos uniformes dos clubes é devido a uma ligação com a região em que este clube está localizado !

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  4. LUIZ OTAVIO disse:

    DALHE CRUSEIRO

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