(Cartaz alemão. De um lado a bandeira alemã. Do outro, a austríaca. Ao centro, a ligação que faltava para a união dos dois países: o Anschluss)
Um dos maiores times europeus do século XX surgiu nos primeiros anos da década de 1930. Com um futebol de muita técnica e extrema velocidade, a seleção austríaca comandada por Hugo Meisl deixou o mundo embasbacado com seu estilo de jogo. Não foi à toa que o time austríaco recebeu o apelido de Wunderteam (Time Maravilha). O principal astro do time, Matthias Sindelar, ficou conhecido como o Homem de Papel, devido ao seu físico esquio e à leveza com que driblava os adversários. Sindelar parecia flutuar com a bola nos pés.
Entretanto, este é período histórico trágico, marcado pela ascensão do Nazismo na Alemanha. Ao assumir o poder em 1934, Adolf Hitler iniciou a organização do Terceiro Reich, objetivando realizar uma integração das comunidades alemãs dispersas na Europa. Para atingir suas metas políticas, Hitler não poupou esforços para conquistar a Polônia, a Ucrânia e a Áustria (além dos Sudetos e Dantzig) e a “união” destas comunidades européias sob a tutela política da Alemanha foi denominada pelos nazistas de Anschluss (anexação).
Assim como na vida cotidiana, as conseqüências dessa união para o futebol austríaco foram devastadoras. Três dos maiores clubes do país foram inseridos diretamente nas competições alemães: o Rapid Viena, o Admira Wie e o First Viena. Os nazistas, com sua ideologia que visava uma “limpeza étnica”, ainda promoveriam a “depuração” das federações dos territórios anexados, dando início ao processo de arianização dos seus dirigentes.Não foi à toa que o presidente judeu do clube FK Viena, time onde jogava Sindelar, foi substituído por um político ligado aos nazistas.
Uma estreita relação ao longo desse período foi mantida entre o futebol e a política. Com intuito de comemorar o sucesso da Anschluss, as autoridades nazistas promoveram em 1938 alguns amistosos entre as seleções da Alemanha e da Áustria. O estádio de Viena, lotado por 60 mil torcedores austríacos, transformou-se em palco de protesto contra a anexação nazista. Os jogadores chegaram a sofrer intimidações por parte de oficiais da Gestapo.
Sindelar, mesmo sabendo das retaliações que poderia sofrer, não se omitiu – o craque marcou dois gols e os comemorou de frente para os seguidores de Hitler na tribuna. O triunfo austríaco foi mais do que uma vitória em um jogo de futebol. Para os austríacos, o sucesso de sua seleção teve um caráter de revanche nacional.
Outra satisfação moral foi conquistada pelos austríacos nos campos de Futebol. O ano era o de 1941 e o jogo era válido pela final do campeonato da Grande Alemanha. Neste jogo, o clube Rapid Viena venceu por 4 a 3, de virada, o Shalk 04, clube alemão que apoiava o regime e que, graças às boas relações com os detentores do poder, conseguiu vencer seis campeonatos nacionais entre 1934 e 1942).
Este não foi apenas um craque dentro de campo. Além de grande jogador, o austríaco foi também um mártir da resistência contra as forças nazistas. Em 1938 recusou-se a defender a seleção alemã na Copa da França e passou a ser perseguido pela polícia secreta alemã. No ano seguinte, em janeiro de 1939, Sindelar foi encontrado morto com sua namorada em seu apartamento em Viena, ambos asfixiados por monóxidos de carbono em circunstâncias até hoje mal esclarecidas. Em seu enterro, cerca de 20 mil pessoas estavam presentes, transformando o acontecimento em demonstração de repúdio ao III Reich. Recentemente, Sindelar foi eleito pelo povo da Áustria o maior jogador austríaco do século XX. Seu legado é exemplo de dignidade e jogo limpo tanto nos gramados quanto na vida.
Áustria – Copa do Mundo de 1934: Bican; Braun; Cisar; Franzi; Hassmann; Hofmann; Horvath; Janda; Kaburek; Platzer; Raftl; Schall; Schmaus; Sesta, Sindelar; Smistik; Stroh; Urbanek; Viertl; Wagner; Walzhofer; Zischek. Treinador: Hugo Meisl.


