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Seguindo o exemplo ERRADO!

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11/10/13

Na semana passada, Paulo Vinicius Coelho, o PVC, postou em seu blog pela Folha e também pela ESPN, um artigo que diz que, a partir do dia 1° de janeiro de 2016, Corinthians e Flamengo terão um aumento considerável em suas cotas de TV.

O colunista palmeirense José Miguel também ressaltou neste post, sua repúdia em relação a este aumento, que vou tentar esboça-lo e compara-lo com dois dos maiores campeonatos do mundo.

Hoje, os contratos de transmissão dos jogos desses dois times valem 110 milhões de reais por ano. Com o aumento, este valor subirá para 170 milhões de reais. Com isso, o abismo entre Corinthians e São Paulo, por exemplo, vai aumentar ainda mais. O Tricolor Paulista hoje têm seus direitos de transmissão valendo R$ 80 milhões por ano. Em 2016, o São Paulo receberá R$110 mi. A diferença atual, de 30 mi, passará a ser de 60 milhões. Palmeiras e Vasco, por exemplo, recebem hoje 70 milhões de reais da Rede Globo. Este valor subirá para 100.

Observando esses valores, fica quase impossível não imaginar uma polarização no futebol brasileiro. No cenário internacional, temos dois bons exemplos de ligas nacionais: A Liga Inglesa (Barclays Premier League) e a Liga Espanhola (Liga BBVA).

Vamos discutir aqui como é a distribuição de valores em cada um destes campeonatos e as consequências disso.

Como funciona a distribuição dos valores por direitos de imagens da Premier League?

Sou suspeito para falar da Premier League. Na minha opinião, é o melhor campeonato nacional do mundo, pelos jogos, pela sua torcida, pelos gramados, e principalmente pelo seu equilíbrio em comparação aos outros campeonatos nacionais da Europa.

Por lá, os valores pagos pelos direitos de transmissão do campeonato são negociados com o grupo, e a renda é dividida da seguinte forma:

  • 50% é dividido em partes iguais pelos 20 times da primeira divisão. O valor arrecadado gira em torno de 9,7 bilhões de reais, logo, cada clube recebe aproximadamente 485 milhões de reais.
  • 25% varia de acordo com a classificação do ano anterior do clube. Por exemplo, o QPR, rebaixado como lanterna da competição na temporada 2012-13, recebe nesta temporada aquilo que lhe é de direito. Todos recebem as suas cotas, do primeiro ao ultimo colocado.
  • Os demais 25% fica por conta das medições de audiência, publico, torcida, entre outros. Desta cota, os quem mais recebem são Manchester United e Liverpool, mas a diferença entre eles e os que recebem menos, está longe de ser um abismo.

Esta forma de distribuição, que me parece justa, pode trazer mais equilíbrio à competição, já que os times, com um caixa gordo oriundo das receitas de TV, não precisam desfazer de seus craques. Outro exemplo prático (sim, eu gosto de exemplos) é o caso Manchester United x Everton. Seu ex-treinador, David Moyes tentou de todas as formas comprar dois dos melhores jogadores do Everton, Baines e Fellaini. Conseguiram levar apenas o Belga, mas só após o time de Liverpool ter ido ao mercado e garantido que a falta de Fellaini pouco seria sentida. Hoje, Baines é primordial ao esquema do Everton e é um dos melhores laterais esquerdos do mundo.

O equilíbrio fica ainda mais evidente assistindo os jogos. Não é raro acontecer, como aconteceu dias atrás entre Manchester City x Cardiff City, um clube milionário perder do recém promovido, ou, como a algumas rodadas, o United perdeu do West Brom, jogando em seus territórios. Em poucas palavras, ninguém da Premier League precisa vender seus craques para continuarem vivos.

E como funciona a distribuição dos valores por direitos de imagens do Campeonato Espanhol?

Se você tivesse que apostar no futuro campeão da Liga BBVA, teria coragem de arriscar em alguém que não fosse Real o Barça?

Na Espanha, novidade é quando temos alguém que não seja Barcelona e Real Madrid brigando pelo topo da tabela. Por lá, como aqui, a negociação entre as transmissoras e os clubes é independente. E adivinhe só quem são os clubes que mais recebem? Os mesmos que desde 2005 dominam o futebol de lá. A ultima vez que um cidadão espanhol não culé ou madridista comemorou o título mais importante do país foi em 2003-04, quando o Valência venceu o campeonato espanhol sob o comando de Rafa Benitez.

De lá pra cá, o abismo dos gigantes sobre os demais aumentam ano após ano. Veja só, hoje, a soma das receitas de Barça e Real equivalem a 55% do total arrecadado por toda a liga.  Em 2002, a soma das receitas dos dois maiores da Espanha eram equivalentes a 38% da receita. Já era alto, mas o abismo fica mais evidente observando o gráfico abaixo.

Voltando aos exemplos, caso houvesse uma distribuição mais justa, o Valência venderia Soldado para o Tottenham? E o Málaga, não teria mais condições de ao menos segurar o jovem Isco para valorizar mais?

Enquanto hoje, a Espanha vivendo em plena crise, a economia em frangalhos e a taxa de desemprego estratosférica, Real Madrid e Barcelona vão de vento em popa, gastando milhões e milhões de Euros com jogadores, se reforçando no cenário europeu e consumindo tudo o que resta da Liga das Estrelas.

Mas estamos mesmo sofrendo uma espanholização do Brasileirão?

Os números mostram que não, mas, a forma de distribuição que estamos seguindo mostra que o campeonato polarizado estimula menos a audiência, e consequentemente, as receitas que os times poderia faturar com patrocinadores cai. O público também é outro fator. Se o torcedor doméstico não vê um campeonato interessante pela tv, não sairá do conforto de sua casa.

Num comparativo em reais, são R$5,36 bilhões da liga espanhola contra os R$ 9,7 bilhões da Premier League. Uma receita 55% menor da liga com os dois clubes mais fortes do mundo, em relação ao campeonato mais assistido do mundo.

Nossos clubes estão diante de dois exemplos: O Bem sucedido inglês, ou o desigual espanhol. O caminho que estamos seguindo, todos vêem qual é.

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14 comentários

  1. Leonardo Rosa disse:

    Não sabia com tantos detalhes assim sobre o modelo de distribuição inglês de cotas de TV.
    O grande problema que temos por aqui é que os clubes querem o melhor apenas pra si e os outros que se lasquem, é sempre um querendo derrubar o outro. O clube A tem a melhor estrutura e, ao invés de auxiliar os demais a conquistarem melhores condições, tenta abocanhar um pedaço maior da fatia do bolo. Hoje é o Corinthians, no passado já foram outros, e dentro em breve outros (os que conseguirem sobreviver) farão o mesmo.
    O modelo a ser seguido (espanhol) é o pior possível e o resultado é o campeonato nacional que estamos acompanhando: tirando um clube que faz um puta trabalho (Cruzeiro), os demais estão nivelando o torneio por baixo, os estádios estão vazios (salvo as atitudes de desespero com ingressos baratos) e a audiência não é das melhores.
    Enquanto os clubes não se unirem, não adianta, poderemos esperar pelo pior. E olha que aqui quem fala é um Corinthiano, meu discurso poderia muito bem ser “meu time é foda, é o que mais ganha, e blá blá blá”, mas não é desta forma que quero ganhar.
    Ótimo texto, dá uma boa discussão este assunto.
    Abraço e Vai, Corinthians!

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    José Miguel Prestes Reply:

    @Leonardo Rosa, sensacional a racionalidade de dois corintianos (vc e o Felipe) para tratar deste assunto. Calma que não estou querendo dizer que corintianos são irracionais! kk

    Confesso que o futebol costuma nos tirar do sério algumas vezes, partindo para a irracionalidade de querer defender seu lado a todo custo. Este é um assunto que realmente deve ser tratado com imparcialidade.

    E que venha Premier League no Brasil! Não custa sonhar…

    Parabéns pelo texto, Felipe!

    Avanti, Canelada!

    Abs.

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    Felipe Rocha dos Reis Reply:

    @José Miguel Prestes, Cara, o Campeonato Brasileiro poderia ser a NBA do futebol. Nós temos o melhor material humano, somos uma fábrica de talentos mas não sabemos vender o nosso produto. Se tivéssemos a organização da EPL, seríamos bem maiores do que eles… Abraço!

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    leonardo marques arnaldo Reply:

    Melhor Material Humano? isso já se foi há tempos. deixe de ser iludido! os outros evoluiram e muito e a gente não!

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    Felipe Rocha dos Reis Reply:

    @Leonardo Rosa, Tenho o mesmo pensamento Léo… Ser campeão igual ao Barcelona e o Real Madrid é fácil.

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  2. Gustavo Campos disse:

    Felipe, que dossiê, hein?! Excelente texto como sempre! Abs., Gustavo Campos

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    Felipe Rocha dos Reis Reply:

    @Gustavo Campos, Valeu Gustavo! É nóis, hahahaha!!!

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  3. Renan Roberto disse:

    Essa "espanholização" do Brasileirão interessa somente à Globo, pois, na teoria, Corinthians e Flamengo fortes estarão sempre na disputa de campeonatos de ponta, garantindo a enorme audiência na TV. Infelizmente fica difícil imaginar uma mudança nesse quadro, visto que os dirigentes dos grandes clubes estão na mão da TV, pois muitos já adiantaram quotas dos campeonatos que ainda estão por vir. Some-se a isso a subserviência das Federações, que também são agraciadas pela CBF e, portanto, seguem suas orientações. Acho pouco provável uma mudança desse quadro, pelo menos a curto e médio prazo.

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  4. Leonardo Rosa disse:

    O que o Renan falou é o grande problema em pensarmos em uma mudança na divisão de cotas de TV do nosso futebol: os clubes estão nas mãos da Globo e as federações nas mãos da CBF.
    O ideal seria uma interveniência do governo no mínimo exigindo que as cotas deveriam ser dividas entre duas emissoras abertas e duas fechadas. Certamente o valor diminuiria, mas com isso seria capaz de criar concorrência e com isso, qualidade no serviço e mais respeito com o torcedor em vários aspectos, a começar com jogos realizados antes do esdrúxulo horário das dez da noite.

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    Felipe Rocha dos Reis Reply:

    @Leonardo Rosa, Infelizmente o governo não pode intervir Leonardo, se um governo intervir em uma confederação, nenhum clube brasileiro nem a seleção pode jogar em qualquer competição FIFA… O problema é que o Clube dos 13 era ridículo. O ideal eram os clubes se reunirem novamente assumindo uma nova posição, e exigindo o que é de direito. Não tem campeonato sem times, simples assim!

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  5. Felipe Rocha Dos Reis disse:

    Renan, a Globo está cagando e andando para um campeonato competitivo. Eles querem a audiência e só. A única saída seria a união entre os dirigentes, porém, é o que você falou… Todo mundo tem o rabo preso.

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  6. caio silva disse:

    normal todos quererem o melhor pra si, assim funciona a concorrência, mas o caso brasileiro é de que a maioria dos clubes, melhor, a maioria dos dirigentes dos clubes, quer o bem da Globo, e esta o bem de Flamengo e Corinthians. Acho que outro assunto a se discutir é a propriedade dos times de futebol, a quem pertencem de fato, no Brasil, diferente da Inglaterra, os times parecem não ser de ninguém, são usados apenas para o enriquecimento de alguns, tais como empresas públicas.

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  7. José Henrique Mota disse:

    O Brasil tem o péssimo hábito de pegar o que há de pior e que vai beneficiar apenas meia dúzia para aplicar aqui. A eu ver, a única solução é a união dos clubes, mas essa história é menos provavél que domingo sem faustão.

    Acho que teremos sempre focos de resistência, mas sem uma união de forças ou uma improvável reviravola a espanholização parece inevitável.

    Abs

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  8. Freed Melo disse:

    Acredito que a divisão como proposta na premier league seja a mais justa. Mas o Futebol Brasileiro precisa de uma atenção em todas as esferas. Times regionais passam por dificuldades enormes. As federações não estão interessadas pq a maioria dos que comandam nosso futebol são corruptos

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