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Footlink – Análise tática pós Copa do Mundo

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15/07/14

Esse é o nome do evento que tive o prazer e a oportunidade de estar presente ontem , dia 14 de julho, no auditório de Furnas, em Botafogo – Rio de Janeiro, e vou contar pra vocês como foi.

Notei de imediato que os debatedores foram escolhidos de forma bem inteligente pelos organizadores do evento, que inclusive, foi muito bem organizado. Eram eles : Joel Santana, Paulo Autuori, Tita e Fernando Seabra , André Rocha e Gilmar Ferreira que foi o mediador do evento.

Antes de entrar no que rolou vou explicar o porque da escolha inteligente. Papai Joel, apesar dos muitos títulos, representa o que se chama hoje de técnico ultrapassado, o estilo bonachão e boleiro já não é mais objeto de desejo dos grandes clubes do Brasil, e como ele mesmo definiu ontem: “ Já estou mais pra barro que tijolo”. Paulo Autuori é um dos caras mais inteligentes que tive a oportunidade de ouvir. Não cai em armadilhas nem deixa pergunta sem resposta. Em compensação não realiza um bom trabalho a muitos anos, e oportunidade teve, talvez não tenha tido tempo de implantar sua filosofia um tanto romântica demais pra competitividade dos tempos modernos. Tita representa a grande quantidade de ex-jogadores de sucesso que não conseguem ter uma carreira de treinador com um nível nem parecido. Fechando o time dos treinadores Fernando Seabra, técnico da nova geração com passagem em clubes que são gerenciados com o modelo empresa como Red Bull, Red Bull Brasil e Audax. Muito inteligente e com conceitos bem modernos, deu show na parte tática explicando tudo que os outros não conseguiam verbalizar. No time dos jornalistas  estavam André Rocha que é contratado da ESPN Brasil e tem o Blog Olho tático com analises  inteligentes e claras por ser um grande estudioso em estratégia de jogo, e o renomado Gilmar Ferreira que é colunista do jornal Extra e por muito tempo foi Gerente nacional do sistema Globo de Rádio.

Na plateia nomes muito conhecidos como Henrique ex-zagueiro de Vasco, Fluminense e Atlético MG, Andrade, Rogério Lourenço, Ricardo Barreto, Arthurzinho, Toninho Barroso, Antônio Carlos Roy, Edson Souza entre muitos outros e alguns estudantes e amantes de tática como eu.

No debate, muito bem comandado por Gilmar, vários foram os temas, redução do campo de jogo padrão FIFA, trabalho de cobertura feito pelo goleiro Neuer, saída de bola com linha de 3, marcação em bloco alto entre outros, mas o assunto que sempre voltava a tona era a reconstrução do futebol brasileiro. O que mais me impressionou é como nossos treinadores não podem ouvir a palavra novidade e não conseguem admitir que estamos atrasados. Repetiram inúmeras vezes que a copa do mundo não trouxe nenhuma novidade tática. Tudo bem, eu concordo, mas a novidade esta então na execução de táticas já conhecidas. Então existem novidades e ponto. Joel Santana, sempre brincalhão, chegou a ironizar o termo compactação dizendo: “agora ta na moda falar compactação”. Sim Joel, senta aqui do meu lado no sofá e vamos assistir uma partida da copa de 2002 e me diz que os times jogavam tão compactos como os de 2014. Tudo que já sabemos foi usado como desculpa, o governo, as divisões de base, o calendário, a falta de estrutura dos clubes, os salários atrasados…

Tudo que era falado no sentido de uma modernização era imediatamente descartado. Mais uma fala de Joel: “ Será que com 30 anos de estrada agente não sabe nada”. Sabe sim Joel, sabe muito, do futebol que era jogado a 30 anos que se parece muito pouco com o de hoje e a relutância em querer entender isso está nos atrasando.

Fernando Seabra destoava dos demais, conceitos modernos, formação de jogadores no modelo clube/empresa foram muito bem pontuado pelo técnico da nova geração. Muito inteligente e habilidoso com as palavras, explicava os novos modelos  aplicados na copa como o estudo das características dos jogadores e a adaptação de treinamentos para desenvolver a criatividade de atletas tanto formados como em formação e a importância de imputar no jogador a arte de ler o jogo.

Mas o melhor estava guardado, nas considerações finais o jornalista André Rocha , que em pouco mais de duas horas de evento teve pouco tempo pra se expressar, falou em alto e bom som tudo que os professores não queriam ouvir: “ Foi falado de tudo aqui, menos dos nossos problemas de dentro do campo. Clube falido, calendário ruim, problema de governo nós sempre tivemos e sempre fomos os melhores. O que esta acontecendo dentro do campo ninguém explicou. Enquanto não tivermos a humildade de entender que nossos treinadores precisam se atualizar, vamos continuar atrasados”. Foi o suficiente para despertar a ira da velha-guarda, até gritos de um senhor da plateia teve. Fernando Seabra fortaleceu a tese de que precisamos aprender sim e muito, com quem tem a ensinar, independente da nacionalidade.

Vocês já imaginam quando foi ventilada a hipótese de um treinador estrangeiro no comando da Seleção. Os professores trataram de ”proteger a casinha” deles. Afinal, o que vai precisar aprender quem já sabe de tudo ?

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2 comentários

  1. Mendes disse:

    Perfeito relato do que se passou no encontro de ontem.

    Também estive lá e mesmo que não tivesse ido, após ler seu texto seria como se lá estivesse. Parabéns pela capacidade de observação e resumo.

    Belo relato e corretas observações sobre o que aconteceu, especialmente ao final.

    Destaque para mais um discurso fora do contexto do Arturzinho…

    [Reply]

  2. João Paulo S. Medina disse:

    Parabéns pelo relato, Witor! De fato temos problemas fora e dentro do campo. Não vai ser fácil mudarmos de paradigma no futebol brasileiro.

    [Reply]

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