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Resgatando uma história gloriosa

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2/07/10

Quando dizemos a alguém que os jogadores de futebol, de quaisquer seleções que sejam, têm que ter orgulho da camisa que vestem, têm que ter ciência de que representam milhões de pessoas, uma nação, muitos nos respondem que o futebol é apenas um esporte, a Copa do Mundo é só um torneio que se realiza a cada quatro anos, que o importante é participar. Isso é uma verdade apenas para os “torcedores de Copas”, o futebol não seria o esporte mais popular do planeta, nem o mais encantador se não puséssemos nele uma importância que talvez não ponhamos em mais nada em nossas vidas.

Todos nós, apaixonados por futebol, temos uma equipe para a qual torcemos e queremos sempre que seja representada por jogadores que transmitam e que incorporem o espírito de seus torcedores, nosso espírito. Na Copa do Mundo a situação é a mesma, mas falamos de algo maior, nossa nacionalidade, nossa gente, a nação a qual pertencemos, nação essa que para nós tem que ser elevada ao mais alto posto do futebol, que consequentemente estará elevada ao maior posto possível em todos os aspectos.

Exigimos, acima de tudo, que os jogadores de nossa seleção tenham raça, determinação, traduzindo dentro dos gramados os nossos sentimentos para com a nossa pátria. O resultado, às vezes, acaba se tornando apenas um detalhe perante a imagem passada pela seleção. Nos clubes, estamos acostumados a dizer que o amor à camisa acabou, que futebol é negócio e o ato de beijar o escudo do time é pura hipocrisia e demagogia. Porém, nas seleções não podemos nem cogitar esse assunto, é óbvio a todos que os jogadores tenham raça, afinal é de sua natureza e não algo que tenham que adquirir.

Não vou aqui falar da Seleção Brasileira. Bem que poderia, mas é um assunto que abordaria vários outros aspectos que não vêm ao caso. Venho aqui falar sobre a Seleção Uruguaia. Como amante do futebol, sou um apaixonado pela história do esporte bretão, tenho uma queda por equipes demais tradicionais em passados remotos, esquecidos pela maioria. Com o Uruguai não é diferente, nem sei se tenho propriedade para falar sobre patriotismo já que sou de família inteiramente portuguesa e nasci no Brasil, tenho um coração dividido, no futebol torço para duas seleções.

No início deste Mundial eu tinha 3 seleções para torcer, não com igual fervor é claro, torcia pelo Brasil, país onde nasci, cresci e aprendi a gostar de bons jogadores e do bom futebol, mas também torcia com o mesmo fervor por Portugal, seleção que representa minhas origens, meu sangue, minha pátria também, já que possuo dupla-nacionalidade. Cresci entre portugueses, torço para a Portuguesa, sempre tive uma ligação muito direta com a “terrinha”, portanto o coração batia mais forte mesmo por Portugal.

Porém, desempenhando o papel do lado do futebol que gosto, o passado e a raça, torcí desde o início para a Celeste Olímpica, o Uruguai bi-campeão mundial e olímpico, o primeiro vencedor de uma Copa do Mundo, quem mostrou a América do Sul ao mundo. Sempre admirei a Seleção Uruguaia pela raça e determinação que lhes é peculiar, e posso afirmar com toda certeza que a Celeste foi a única seleção deste Mundial que me fez vibrar de verdade, que fez meu coração bater mais forte, do jeito que uma Copa do Mundo faz naturalmente.

Uruguai e Gana protagonizaram hoje o jogo mais emocionante desta Copa até então. Pudemos ver, como sempre, jogadores uruguaios não se entregando em momento algum, mesmo quando a técnica faltava ou o cansaço os abatia, mas a vontade estava sempre presente. Ao final da prorrogação, tivemos um lance que traduz bem o sentimento dos uruguaios. O Uruguai é um país de muita tradição no futebol, tradição essa esquecida por muitos, passamos a tratar o Uruguai como uma seleção qualquer, pequena, mas esquecemos que nenhuma nação é pequena.

Antes mesmo do início da partida, durante a execução do Hino Nacional Uruguaio, víamos o orgulho com o qual eles cantavam, era nítido que os jogadores realmente encorporavam seu hino, mostravam ao mundo o brilho de toda uma nação, que têm orgulho de onde vêm e do que são, algo muito raro de se ver no futebol atual.

Vemos no brilho dos olhos desses jogadores e na raça que têm dentro das quatro linhas que eles estão empenhados em resgatar essa história gloriosa, empenhados em reafirmar ao mundo que são grandes e que devem ser tratados como tal, que superam suas deficiências e a pequenez territorial de seu país com a vontade. Suárez, um dos principais jogadores da equipe ao lado de Forlán, que foi talvez o principal nome uruguaio até então no Mundial, mostrou que abre mão de seu orgulho próprio, de seu ego, colocando seu país acima de tudo.

Ao defender a bola com as mãos em cima da risca do gol, Suárez traduziu o que os uruguaios sentem e fariam no momento, pôs em prática aquilo que está engasgado no povo celeste. Ele fez tudo que podia, e o que não podia, para ajudar sua seleção. Deixou de lado a disputa pessoal das semi-finais para colocar sua seleção lá. O destino recompensou os uruguaios com a bola no travessão e uma nova chance nas penalidades alternadas. O destino deu aos “velhos conhecidos” do futebol uma nova chance de se reerguer, Gana ainda tem muito a mostrar no futebol mundial, é uma promessa, tem um futuro promissor. Não é qualquer jogador que faz o que ele fez, mesmo sendo “no susto”.

Nas cobranças alternadas víamos a seriedade, a experiência e o peso da camisa celeste. Os jogadores uruguaios foram serenos, calmos, precisos, fizeram o que deveria, são calejados, perderam a última Copa América desta maneira, não se deixariam cair no mesmo erro. Já Gana mostrou sua inexperiência, quiseram inventar aonde o básico fazia-se necessário. Resultado: a Celeste Olímpica chega às semi-finais depois de 40 anos.

Para a Celeste não importa mais ir à final ou não, o povo uruguaio não precisa do título para ficar feliz, contentam-se com o básico, com aquilo que têm o dever de fazer, defender sua pátria e colocar sua nação acima de tudo. O mundo novamente viu o brilho do sol estampado na bandeira uruguaia, viu o brio dos jogadores, a tradução dos sentimentos de um povo, a grandeza de uma seleção. A sonhada final, o título, são apenas consequências à essa altura, o importante é o reconhecimento e o respeito readquirido por eles. Ah, como a Copa do Mundo é fascinante…

FORÇA CELESTE OLÍMPICA!!

Por Luiz Nascimento.

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2 comentários

  1. Guilherme de Morais disse:

    meu, esse sim foi um jogo DIGNO de Copa do Mundo, não essas peladas que estávamos vendo por aí. Essa seleção tem tudo para chegar a final, coisa que só não aconteceu com o Brasil por causa do “Gênio” Felipe Melo, que fez o favor de acabar com as chances da seleção, mesmo tendo uma segunda chance, já que se o Ramires não tivesse suspenso, ele sabia que seria banco dele!!! Mas é isso aí, futebol tem dessas!!!

    Beijo na sua alma!!!

    [Reply]

  2. Vinicius Vidal disse:

    clap, clap, clap, o post tá animal! e essas fotos tão de fudê!

    concordo com tudo, torci muito por Uruguai e os invejei. Gostaria de sentir orgulho pela seleção do meu país como os vi sentindo hoje, sinto por eles então.

    Assisti todos os jogos do Uruguai na Copa, consigo lembrar de cada gol feito, do Brasil eu lembro de alguns, como aquele golaço do Favela que teve duas mãos.

    E não é por se tratar de que sou do contra, anti-patriota, essas baboseiras, etc, etc. É que essa seleção aí, tirando um ou dois jogadores, o resto não diz nada, não passa esse sentimento que você menciona no seu texto, não te dá tesão pra acompanhar a campanha junto deles e como não sou de ferro, torço pra quem me passa isso.

    Assisti hoje um VT do Brasil em 82 e 86, velho, aquilo ali é lindo, te dá vontade de abraçar aquele time, perdendo ou ganhando. Mesmo em 94 com futebol duro foi foda. Dps disso pra mim o Brasil se tornou algo sem sal, marrento, mala, profissional, tático e com jogadores sem personalidade, assalariados.

    Enfim, estive e estou com o Uruguai e desejo muito estar com a seleção do meu país nos próximos anos.

    [Reply]

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