Canelada

Home | « Todos os posts do Cruzeiro

Torcida dividida no Superclássico?

por
10/03/17

Primeiro de fevereiro de 2017. Superclássico válido pelo torneio-mico Primeira Liga. Quarta à noite, cedo, horário incomum para clássicos. A bola sobe, vai alta, e desce rente ao corpo de Arrascaeta que domina a pelota magistralmente adiantando-a na medida certa, mais um tapa e Giovani deitado, sem rumo, o craque então rola para o gol vazio. Um grito sai da alma em um momento de êxtase completo da torcida. De que vale a Primeira-Liga? De que vale o segundo jogo de uma longuíssima temporada?  Vale ver aquele código de barras a frente, mudo, paralisado.  Vale o que mais vale no futebol. Ganhar de quem você detesta, de quem você torce contra.

Passa um pouco de tempo, e as mais de 40 mil almas que foram ao Gigante da Pampulha vão pra casa. Metade feliz, como criança, fazendo via-sacra pelos botecos bebendo. A outra metade chega em casa, diz boa noite para a esposa , pergunta se sobrou janta, senta e vai secar o Botafogo na Pré-Libertadores tentando não pensar no dia seguinte, dia de ir trabalhar e ver o sorrisinho sacana do porteiro ou trocador ou do colega da mesa do lado.

Saldo desse jogo: nenhuma ocorrência policial, nenhum confronto registrado. Êxtase nas redações das rádios e jornais (menos nos de 25 centavos, porque lá eles vão ter de procurar um crime pra por na capa) porque deu certo. Porque teremos nosso clássico de volta. 10 entre 10 cronistas falaram em “noite que todos venceram”. No caso da imprensa mineira o sentimento parece ser legítimo, mesmo sabendo que 9 entre 10 cronistas são galináceos e estão a fim de desviar o foco. Voltemos ao passado e viajemos pelo país.

Por aqui…

Meados de 2010. Ano de fechamento do Mineirão para a copa de 2014. O gigante viria a ser reaberto no início de 2013, remodelado. Por incompetência absurda das autoridades, BH ficou dois anos sem futebol. Desde o meio de 2010 até o meio de 2012, quando o Independência foi reinaugurado. É que pegaram o Independência para reformar, exatamente para ser a casa do futebol mineiro durante o tempo sem o Mineirão, mas a obra atrasou, sabe como é… Terra de estádio público é assim, nem dá pra reclamar. Bom, o texto não é sobre isso.

O texto é para ser atual. Mas foi lá em 2010 que foi posto o ovo da serpente.  Sem campo em BH, a bola rolou prioritariamente em Sete Lagoas. Como a estrada é longa, e o campo é acanhado, Cruzeiro e o outro time com quem jogamos o clássico, fizeram um acordo, de forma voluntária, para que, sem estádio em condição de receber as duas torcidas, os clássicos fossem jogados em torcida única.

Em Sampa…

Briga de Andrés Sanchez (que puta nome de mafioso paraguaio) com o São Paulo, o Corinthians resolve que nunca mais iria mandar um jogo no Morumbi. A empáfia do time são-paulino fez com que fosse fácil que Palmeiras e Santos seguissem pelo mesmo caminho.

Com clássicos paulistas acontecendo na Vila Belmiro, a quantidade de visitantes foi diminuindo ano a ano. Eu já fui ver jogo do Cruzeiro na Vila Belmiro. A Vila é um lixo de estádio para os visitantes. Daquele poleirinho ridículo no canto você não vê nada na linha de fundo do lado de cá. Lembro em 2014, quando o Goulart fez 1X0 nós começamos a pular porque ele levantou os braços e veio pra galera, pro nosso lado.

Ao ativar a reciprocidade, a quantidade de visitantes foi caindo, até atingir 5%. 5% é uma ignorância, é menos pior do que torcida única, mas é quase isso. Imagina que tipo de público você seleciona quando estão à venda para um clássico, 2 mil ingressos, para “encarar” 38 mil adversários. Por isso quando o assunto torcida única, torcida dividida vem à mente, a primeira coisa a questionar é sempre a atitude dos clubes, que muitas vezes topam as muletas que um procuradorzinho de merda, louco pra aparecer dá.

Até no Rio.

Em breve os clássicos cariocas irão mudar. Pelo menos os clássicos envolvendo o Botafogo e o Vasco. O Botafogo é um time de merda, com uma torcida envelhecida e pequena no Rio. Topar jogar com o Flamengo no Maracanã com torcida dividida é ceder sempre o mando de campo para o adversário. O primeiro passo foi dado, e o Botafogo teve uma postura absolutamente patética nesse episódio envolvendo a final da Taça Guanabara. Já nesse Brasileiro deverá querer impor mando nos seus clássicos no “Nilton Santos”.

O episódio, em que enfim peitaram um procuradorzinho desses, serviu para fortalecer o Fla-Flu, já que os clubes são aliados e devem mandar seus respectivos jogos grandes no mesmo estádio, esse clássico deverá ser o responsável por manter a tradição carioca. Parece-me muito claro que no primeiro momento em que a situação o favorecer, o Eurico Miranda vai roer a corda.

É igual a metáfora do escorpião atravessando o rio nas costas do sapo (só que nesse caso o Eurico em vez de sapo é o escorpião).  Imagina só se a final mixuruca desse torneio fosse Flamengo e Vasco e o tal sorteio de mando que o Fluminense ganhou fosse vencido pelo Vasco? Não tenho a menor dúvida que o Eurico levava esse jogo pra São Januário. O próximo passo seria o Flamengo retaliar e impor 10% de visitantes em seu próximo mando. E essas merdas, uma vez feitas, são difíceis de desfazer.

Eu amo esse jogo!

Voltando.

O prólogo foi longo porque Minas não é uma ilha. Nem praia tem por aqui. A cegueira e a visão curta minam projetos que precisam ser coletivos. Como deveria ser o Clássico entre Cruzeiro e Clube A. Mineiro. Durante muitos anos, na época em que o Campeonato Brasileiro tinha a primeira fase e depois o mata-mata (suspiros de saudade), o maior público do campeonato, até aquela etapa, invariavelmente era o do Superclássico. Lembro na entressafra, em 2001 um Cruzeiro e Atlético, 2×2 no Brasileiro. Vi esse jogo na geral, e o Alex fez dois golaços. Eu e outras 84 mil pessoas fomos ao Gigante naquela tarde. Nessa época eu morava no interior e ver qualquer jogo no Mineirão era difícil, mas o Clássico valia. O Clássico sempre vale.

No início citei que o ódio pelo adversário é o que dá o sabor especial para essas vitórias. Mas o ódio deve estar restrito ao sentimento de torcedor e extravasado no campo. O ódio, tem que ser acompanhado de um pouco de inveja, quando o adversário faz o gol e parece querer rachar o estádio ao meio, e você olha pra organizada e vê que por um momento o medo da derrota silencia. Mas engole aquilo e canta, envia força ao time, pois derrotas acontecem, mas “pra eles não”. Esse ódio metafórico é pelo time que você ama ver perder. Paradoxalmente, é o segundo time que mais vemos. O ódio é pelo símbolo e pela camisa do rival, pelas falsas glórias, não por quem a veste.

Enfim voltamos ao passado, nesse post que tá parecendo filme do Nolan, para 2012. O que o nosso atual prefeito, o Kalil, o Eurico Miranda das alterosas faz: declara que o time dele não mandaria jogos no Mineirão.  Então de 2013 adiante, assistiu-se a uma grenalização do Superclássico. O Cruzeiro mandando seus jogos no Mineirão, e o outro time naquele campinho horrível no Horto. Nessas idas e vindas, tudo o que aconteceu/acontece em outras praças, aconteceu aqui. Promotorzinho mequetrefe, torcida única, 10%, menos de 10% e etc. Até que chegamos ao 1º de fevereiro de 2017.

A experiência foi um sucesso. Mas será mantida? A resposta, infelizmente, eu acho que é não. Falta legitimidade, confiabilidade e liderança para a FMF conduzir esse processo, mediando a situação. Clássico em Minas 50/50 é uma questão de ganha-ganha, para os dois clubes, se estabeleceria um círculo virtuoso em longo prazo, já que o produto fica melhor, logo mais caro, logo um pouco melhor…. O jogo se expandiria, já que o potencial mercado dele seria dobrado, como se o Cruzeiro tivesse apenas 30 mil ingressos à venda para o jogo que todos querem ir e o mesmo funcionando para o outro lado.

Como funcionaria, se fosse pra dar certo?

No jogo da Primeira Liga (ai, ai) o mando era teoricamente do Cruzeiro. Mas só em teoria porque essa estupenda competição tem 3 jogos na primeira fase. Assim obrigatoriamente dois times fazem dois jogos em casa e dois fazem dois dos três fora. Na hora de compor a tabela, foi fácil. Passou-se o mando para o Cruzeiro e cada um dos rivais ficou com um mando e meio, quando se resolveu por torcida dividida.

No Campeonato Mineiro, a coisa já muda um pouco. Afinal dos 11 jogos da primeira fase, o Cruzeiro manda 5, incluindo o clássico e o Atlético 6 jogos. Equilibrar o mando do clássico, desequilibraria tecnicamente a competição já que seriam 4,5 mandos pro Cruzeiro e 6,5 mandos pro outro time. Aliás, parêntese, dizem que eu pego no pé da FMF, mas contra o América, na 7ª rodada o Cruzeiro fará seu quinto jogo fora, o inverso vale pro outro lado.

O jeito certo de isso funcionar seria os dois times se sentarem agora, quando ainda falta tempo para o jogo e criar o “Evento Superclássico”. A marca “Superclássico” criada há alguns anos pela Itatiaia deveria ser explorada pelo evento. Registra um contrato em cartório e na Federação Mineira, uma meia dúzia de regrinhas, mesmo que por tempo determinado. Pelos próximos dois anos, talvez. As regras têm de incluir, a divisão do estádio, bloco por bloco, como os times vão se comportar em relação à renda, como vai funcionar se um jogo tiver atratividade para apenas um dos lados, coisas como repasse de percentual de ingressos e etc. Nada pode ficar por conta do bom senso, pois cartola pressionado é o bicho mais sem bom senso do mundo.

Nada é muito simples. Pra começar, a reforma do Mineirão deixou um estádio que tem um lado diferente do outro.  O Cruzeiro tem mais espaço no setor roxo, pela divisão natural do setor pelas cabines de transmissão. No clássico de fevereiro, isso foi compensado dando mais espaço para o Atlético no setor vermelho, o que aparece na TV. Conhecendo esses cartolas e sabendo que qualquer picuinha pode virar pretexto pra virar a mesa, isso tem de estar em um contratinho mesmo. O setor roxo inferior, que é da Minas Arena não tem de ter separação de torcida, como antigamente. Deveria ser o setor de torcida mista mesmo.

Quanto aos ingressos, cada clube deveria ter a liberdade de precificar e vender os seus, obtendo, é claro a renda deles. As despesas seriam divididas.

Como vai acontecer.

O Cruzeiro é o mandante do próximo clássico. Então para que o próximo clássico seja em torcida dividida, o clube vai ter de abrir mão de alguma coisa agora, para receber em troca no Mineiro do ano que vem, quando o mando será invertido.  A chance de isso acontecer é muito pequena, por que:

– Haverá o tal desequilíbrio técnico e o Atlético está na frente. Como o clássico é na 10ª rodada, esse ponto pode ser invalidado se as posições já estiverem definidas, por exemplo. Se o Cruzeiro estiver, como hoje, dois pontos atrás, duvido que a Diretoria abra mão do mando.

– Esse é o último ano de mandato das duas diretorias, aqui como lá. Esse acordo (esse ano e ano que vem) extrapolaria o tempo delas a frente do clube e teria pouca confiabilidade.

– A tal “reunião do jogo” vai acontecer, como de costume, na sede da FMF na semana do evento, o que dificulta a operação nos termos corretos.

Passando esse jogo, dependendo do rescaldo que ficar, que nunca é desprezível, há chances de os times colocarem o tal clássico 50/50 nas finais do Mineiro, se ambos chegarem. A conversa fica bem mais simples, tendo dois jogos em semanas consecutivas. Mas, para o Brasileiro, a conversa já é um pouco diferente. Então, insisto, para dar certo, caberia dedicação das duas diretorias e uma solução definitiva.

Sou declaradamente cruzeirense, assim como o Castelarzinho é declaradamente atleticano, mas garanto que sou menos parcial que ele. Posso mediar o debate se os clubes quiserem, afinal é o Superclássico, nosso patrimônio cultural que está em jogo. Será que podemos andar pra frente?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 

Gostou? Não? Comenta aí: