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Entrevista com Gatãozinho, Herói do Brasileiro de 83

por
29/07/16

Gatãozinho e o livro sobre o Gatão, seu pai. Presente inesquecível.

José Fernando Naval. Mas todos o conhecem pelo apelido, Gatãozinho. Considerado (e reverenciado) como o grande craque da maior conquista juventina, o Campeonato Brasileiro de 1983, a nossa Taça de Prata (para os modernos). Revelado na sua Piracicaba natal, do XV de Novembro aos juvenis do Corinthians foi um pulo, típico dos felinos. No Timão foi contemporâneo do também amigo Rafael Cammarota, Zé Eduardo, Luizinho e Wladimir. Campeão Paulista em 1972. Retornou ao XV como profissional, em 1973. No ano seguinte, no São Bento de Sorocaba, se tornou recordista de atuações em jogos, entre 1974 e 1981. Nesse meio tempo, Bicampeão da President Park´s Cup, na Coréia do Sul, pela Seleção Paulista, em 1976-77. Veio para o time da Mooca em 1981, onde ficou até 1988. Além da já citada Taça de Prata (onde marcou um dos gols nos jogos finais), com a camisa grená sagrou-se campeão no Torneio Início Paulista de 1986. No Bragantino, conquistou a Intermediária em 1988 e novamente campeão brasileiro da Série B em 1989, sendo nada mais nada menos do que o autor do gol do título. Retirou-se, ano seguinte, no São Bento mas permaneceu no futebol, como treinador, até 2006. Resolveu então ensinar às novas gerações numa escola de futebol, mas em 2012 finalmente resolveu desfrutar sua merecida aposentadoria. Tem orgulho de suas origens. É religioso. Seu inconfundível sotaque típico do interior paulista, revela sua personalidade tranquila e espontânea. Vem de uma família ligada ao futebol. Tatau, seu irmão, jogou em várias equipes do futebol paulista e seu pai, o inesquecível Gatão, foi ídolo no XV e no Corinthians, e recentemente teve sua biografia lançada em livro (Gatão, do XV ao Corinthians, tributo à trajetória de um vencedor, de Adolpho Queiroz e Pedro Sakr) que carinhosamente Gatãozinho me presenteou. Nesse bate-bola, Gatãozinho relembra seus tempos no Juventus, revela detalhes do Brasileiro de 83 e nos brinda com duas emocionantes histórias que exprimem toda a saudade e amor por seu pai. A página dele no Facebook é https://www.facebook.com/Gat%C3%A3ozinho-1173856035970483/

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer sua gentileza em participar desta entrevista e o livro que você me presenteou. Vou lê-lo e guardá-lo com muito carinho. Vamos começar pelo mais óbvio: O que representou a você a conquista da Taça de Prata de 1983 ? Com certeza representou muito. Na vida de nós, atletas, precisamos ter conquistas. Além de nos valorizar profissionalmente, dá mais motivação, incentivo, valoriza o trabalho de todos. O Juventus, um clube com excelente estrutura, ótimos dirigentes e poucos torcedores, mas que fizeram a diferença. Para mim e meus companheiros era uma maneira de retribuir todo esforço, carinho que recebíamos. E nada melhor e mais gratificante conquistar este título e ser marcado para sempre na história deste grande e querido clube.

O CSA (adversário da final) era dirigido pelo Fernando Collor de Mello… Houve alguma intimidação ou tentativa de suborno, principalmente no jogo em Alagoas ? Não fiquei sabendo de nada. Na verdade o Candinho, nosso técnico, nos dava muita moral, e o plantel era muito unido. Isso foi muito importante para enfrentar as adversidades.

Conte algum fato curioso ocorrido na campanha da Taça de Prata…Um fato que marcou muito para nós jogadores foi sem dúvida a união e o respeito entre os jogadores, comissão técnica e dirigentes. O Candinho fazia questão de demonstrar que todos tinham o mesmo valor (titulares e reservas) e pedia aos repórteres para variar sempre os jogadores nas entrevistas antes e depois dos jogos. Isso fortaleceu ainda mais o nosso grupo.

Você ainda frequenta a Javari, costuma aparecer em jogos do Juventus ? Não… Depois que parei de jogar fui pouquíssimas vezes na Javari. Assisti alguns jogos pela TV, em Piracicaba (onde mora atualmente) e região, procuro acompanhar pelos jornais e TV. Mas tenho encontrado com torcedores em outros lugares, e posso dizer que fico muito emocionado pelo carinho, respeito que eles tem por mim. E sempre faço questão de retribuir contando momentos e passagens marcantes, sinto muito orgulho de ter vestido a camisa grená por sete anos e ser querido até hoje por torcedores e amigos do Juventus.

Como você vê a fase atual do Juventus ? Difícil comentar esta pergunta, mesmo porque não acompanho de perto. Não acho justo dar minha opinião. Na minha cabeça, quando eu ouço falar Juventus, eu fico imaginando como era na minha época, jogando entre os melhores times do estado e sinto como qualquer outro torcedor: Não vejo a hora de ver o time na A1. Mas tenho certeza que em breve o Juventus vai estar de volta.

Você dedicou muitos anos de sua vida em ensinar futebol e como treinador de equipes de base. Que conselhos você daria à essa meninada que sonha em ser jogador ? Alguns que acho importantes: 1º, Dedicar muito nos treinamentos. Se treinar bem, com certeza irá jogar bem; 2º, Obedecer e respeitar treinadores e preparadores; 3º, Ser leal com os companheiros, ser humilde e nunca se achar melhor que ninguém; 4º, Acreditar e ir em busca dos seus sonhos, nunca desanimar; 5º, Sempre fiz questão de falar para os garotos sobre a importância de se cuidar fora de campo, escolher os amigos, ocupar o tempo com coisas boas e nunca deixar de estudar, porque mesmo se não prosseguir como atleta, vai ser uma boa pessoa, um bom pai… Vitórias e derrotas fazem parte do futebol, o importante é sair de campo certo de que fez o melhor.

Seu pai foi um craque. E com certeza, seu maior exemplo. Fale um pouco sobre ele… Falar de meu pai é uma das coisas que gosto, me empolgo, me emociono. Como jogador vi muito pouco, só depois que encerrou a carreira (jogos de veteranos). Como jogador no XV, foi um dos maiores ídolos. Jogou mais de 450 partidas, fez 202 gols. Até hoje, torcedores do XV ou pessoas que o viram jogar falam muito bem dele, lembram histórias e momentos marcantes… Da maneira como ele se comportava em campo… a garra, vontade, líder, artilheiro. No Corinthians também fez muitos gols e participou de jogos importantes. Também jogou na Ponte Preta. Nos clubes que joguei, torcedores e dirigentes sempre comentavam quando chegava: “Se você jogar 20% que seu pai jogava, nós estamos satisfeitos”… Meu pai ensinou muito sobre o futebol, me incentivou, mostrou o certo e o errado, e quando percebeu que eu tinha o jeito, me disse: “Se você quiser ser jogador como seu pai, você tem de treinar muito, se preparar bem, ser o melhor todo dia, respeitar os treinadores, ser leal com os companheiros, escolher as amizades, se alimentar bem”… Nós temos muitas histórias, muitos momentos inesquecíveis, sempre fomos mais que “pai e filho”. Eu era fã e sempre procurei escutar seus conselhos e ensinamentos. Me cobrava muito nos treinos. Com 10 anos eu já me destacava nos campeonatos de colégio; aos 12, participando num campeonato da cidade, cheguei à final, mas fui vice… Aí surgiu nos jornais que “Gatão tinha um filho que se destacava” e surgiu o apelido Gatãozinho… Fiquei muito feliz, dai para frente aconteceram muitos campeonatos infantis, juvenis, amadores… Até que em 1971 quando me levou ao Corinthians, e em apenas um treino, eu fui aprovado ! Em 1972 fomos Campeões Paulistas de Juniores. Ele sempre esteve presente nas assinaturas dos meus contratos. Fazia questão de me acompanhar.

Conte alguma situação envolvendo vocês no futebol… Vou contar uma passagem muito marcante para nós dois: Em 1986 eu estava jogando no Juventus. Ele já estava afastado um bom tempo do futebol (Gatão foi treinador também) e nós íamos jogar contra o XV de Piracicaba na Javari… Na véspera, cheguei para treinar e o seu Pedro, que era porteiro, me disse: “Gatãozinho, amanhã o seu pai vem aqui na Javari” Eu perguntei: “Assistir ao jogo ?” Ele disse “Não, como treinador do XV…” Na hora, fiquei espantado pois não sabia. Fui na secretaria e liguei para a minha mãe; aí que fiquei sabendo: Amigos dele, mais o prefeito da cidade, pediram para ajudar a salvar o XV, que estava em último lugar… Falei para minha mãe que ele estava fora de si, fazer uma loucura dessas… Ele frequentava a Javari, vinha assistir aos jogos e às vezes almoçava com a gente. Tinha amizade com todos no Juventus… Só sei que foi difícil entender. O Juventus estava invicto na Javari e o XV, em último lugar… Imaginem a minha cabeça… Saber que eu ia enfrentar o meu pai, aquele que me ensinou tudo, que eu amava muito e tinha de derrotá-lo na sua estreia. Chegou a hora do jogo, entramos em campo, e a primeira pessoa que vejo foi ele, sentado no banco de reservas, cabisbaixo, um olhar tenso. Fomos ao meio-campo, saudamos as torcidas… Aí fui na direção dele para desejar boa sorte, e ele já vindo ao meu encontro. Ali nos abraçamos e choramos. E à nossa volta, vários repórteres olhando aquela cena, pois não conseguíamos falar nenhuma palavra. Ele me abraçava muito forte e nós não conseguíamos falar nada, até que ele conseguiu dizer: “Meu filho, você tem que ser o melhor, não se importe com que vai acontecer com o seu pai..” Aí a emoção aumentou, eu não consegui dizer uma só palavra. Rodeados por repórteres, ele ainda me beijou e voltou cabisbaixo para o banco de reservas. Esta cena está guardada até hoje no meu coração… Quanto ao jogo, no 1º tempo só deu Juventus, mas Sidmar, goleiro do XV pegava tudo. No 2º, o XV equilibrou o jogo e conseguiu fazer um gol no final da partida. E venceu, por 1 x 0, para felicidade de meu pai ! O XV ganhou mais três jogos seguidos depois e conseguiu se livrar do rebaixamento. Mas ao final do campeonato meu pai nunca mais quis ser treinador.

Tocante demais, Gatãozinho. Que linda lembrança… Outra grande emoção foi em 1989. Eu estava no Bragantino, e chegamos à final do Brasileiro Série B, contra o São José em Bragança. Meu pai estava lá com meu irmão Tatau, meu filho Vinícius e meu sobrinho Raphael. Ganhamos por 2 x 1, e fiz o gol do título. Na comemoração, fui na direção dele e acenei, oferecendo aquele gol à para ele… Ele ficou tão contente e emocionado que depois, nos vestiários, meu irmão falou que ele passou mal… Mas logo depois já estava bem. Tivemos muitos momentos marcantes e não dá para falar sobre todos. Tenho orgulho em ter sido o primeiro filho a se casar e me lembro da alegria dele na festa, com meus amigos e convidados. Também fui eu quem lhe deu a primeira neta, a Vanessa, e o primeiro neto, Vinícius. Ele, que teve sete filhos, sempre se preocupou e ajudou muito à todos. Se fui um atleta que jogou 18 anos profissionalmente e esta pessoa que sou, devo muito à meu pai e à minha mãe.. Ele, que me acompanhou no esporte, e minha mãe, nas orações. Em 1995 ele nos deixou. Foi um grande chefe de família, um verdadeiro exemplo para nós, filhos. Agradeço sempre a Deus por ter colocado ele ao meu lado nos momentos mais importantes da minha vida e da minha família.

Você acredita ainda no futebol ? Vemos tanta coisa errada hoje em dia, corrupção, manipulação de resultados… Você viveu o futebol de amor à camisa. E atualmente o dinheiro parece falar mais alto… Hoje a realidade é outra. Empresários, dirigentes e jogadores estão preocupados com outras coisas, cada um pensa em si, só visam lucro, vantagens… Ouvimos tantas coisas que é difícil de acreditar. Se você lembrar, até um tempo atrás sabíamos as escalações de cabeça dos clubes. Hoje em dia não sabemos quem joga nem aonde, de tanto que mudam de time. Acabou o amor ao clube, à camisa que vestia… Outra coisa que mudou é que tempos atrás, para você ser considerado um bom jogador, você tinha de jogar bem 4 ou 5 anos… Hoje o cara disputa um campeonato, faz alguns gols e já falam que é CRAQUE (enfático)… E mais ainda, o nível de salários de técnicos e jogadores hoje em dia é muito desproporcional em relação ao povo. O grande exemplo hoje é a nossa seleção, que sempre foi muito temida respeitada, e hoje jogam como se fosse qualquer outra seleção.

Para finalizar: Deixe uma mensagem para a torcida juventina que tanto lhe admira e reverencia.. Aos amigos e torcedores do Juventus, gostaria de dizer que o Clube Atlético Juventus foi importante demais na minha vida de atleta. Cheguei no clube com 28 anos anos e vi um Juventus muito bem estruturado, dando excelentes condições de trabalho, um time forte e competitivo, onde foi rápida minha adaptação. Fiquei 7 anos e nunca tive problemas para reformar contrato, pelo contrário, sempre reconheceram o meu valor. Foram 7 anos de alegrias, num clube diferenciado, muito bem administrado, sempre nos dando segurança e respaldo em todos os momentos. Sou eternamente grato aos dirigentes, jogadores, amigos e torcedores pelo carinho e respeito por tudo que fizeram por mim… São tantos momentos importantes e especiais que ficaram marcados e gravados em meu coração… Tenham certeza: Aprendi a AMAR (enfatiza) este grande clube. Me junto a vocês torcedores na esperança de ver o mais breve possível o nosso querido JUVENTUS  na divisão maior do nosso estado.

Obrigado… Deus abençoe a todos. Abraços do Gatãozinho !

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4 comentários

  1. Jose Fernando Naval (Gatãozinho ) disse:

    Caro Amigo.Marcos..gostei muito da nossa entrevista e por Vc me dar a chance de voltar aos tempos de Juventus,isto fez muito bem pra mim,lembrar da Javari dos meus amigos ,técnicos,dirigentes,jogadores, e poder lembrar passagens com meu Pai..agradeço de coração meu Amigo,isto nao tem preço,pessoas como Vc que valorizam e gostam de ver pessoas Felizes …Deus lhe pague…conte comigo…grande abraço.

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    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Meu amigo Gatãozinho. Se há alguém a agradecer, sou eu. Nesses tempos de ‘futebol-business’, suas palavras soam como um resgate ao futebol romântico, de amor à camisa, de pessoas que encaram a profissão de atleta com disciplina de corpo e alma e sem maiores deslumbramentos. As lembranças de seu pai valeram para mim como um tesouro. Rara como ouro, a grandeza de suas memórias e palavras enriquecerão a muitos. Um grande abraço e mais uma vez – obrigado pela honra desta entrevista. Foi uma experiência transformadora.

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  2. Miguel A.Domingues disse:

    sou ex jogador de futebol eu me encontrava muito com o gatãozinho no xv de piracicaba onde conversávamos muito de futebol,,,ele treinador da base do xv eu gostaria muito de falar com o gatãozinho perdi o contato com eles depois dele ter saido do xv
    Se fosse possível queria entrar em contato com ele…
    Só Falo Miguel que jogou na Lusa de sp e de santos ele vai lembrar e falar que sou de sao paulo,,,Abraços

    Obs..Não Poderia deixar de falar,,,entrevista maravilhosa com o Gatãozinho,,,ele merece muito ser lembrado pelo Juventus

    Parabéns pela entrevista

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    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Caro Miguel: Obrigado pelos elogios ! Mas o mérito cabe integralmente ao Gatãozinho, em sua generosidade ao compartilhar suas opiniões e memórias. Repassei seu email à ele. Se preferir, acesse a página do Gatãozinho no Facebook: https://www.facebook.com/Gat%C3%A3ozinho-1173856035970483/?fref=ts
    Um grande abraço !

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