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Entrevista com Rafael Cammarota

por
22/06/16

Foto: Carlos Roberto da Silva

Ele é filho de italianos, frequenta a Mooca desde menino. Seu pai foi prisioneiro na 2a. Guerra. Direto, franco e espontâneo, fez amigos (e inimigos) graças às suas posições. Campeão brasileiro em 1985 pelo surpreendente Coritiba de Ênio Andrade, praticou defesas espetaculares que lhe renderam a Bola de Prata da revista Placar no mesmo ano, e inúmeras indicações de comentaristas para ser o goleiro da seleção na copa de 1986, mas Telê não o chamou. Dono de ótimos reflexos e senso de colocação, ousado, se atirava nos pés dos atacantes (que garantiu vitórias e lhe rendeu algumas fraturas). Como cidadão, viveu o nascimento da Nova República, o período de redemocratização do país após os governos militares. Hoje, manifesta sua indignação com a política atual, faz planos e, claro, conta suas experiências com o Juventus, e o mais italiano dos bairros paulistanos. É um defensor do futebol romântico. Tenho a honra de chamá-lo de amigo. Ele é Rafael Cammarota, 63 anos. Defendeu clubes como Corinthians, Ponte Preta, Atlético Paranaense, Sport, Santo André e Ferroviária, além da Seleção Brasileira nos Jogos Sul-Americanos de 1986 no Chile. Recentemente preocupou seus fãs com uma inesperada cirurgia. Caminhar com ele na capital paranaense significa ser  interrompido constantemente com pedidos de selfies, e atende a todos com total disposição. Nosso encontro, numa tradicional confeitaria no centro de Curitiba, se deu em meio a cafezinhos, e foi registrado em fotos pelo também amigo e fiel torcedor coxa-branca Carlos Roberto da Silva.

Rafael, se eu falo Juventus, o que vem à sua mente ?
Javari, Mooca, meu bairro… Amigos… Eu frequento a Mooca desde que eu me conheço por gente, né ? Com 12, 13 anos, eu já frequentava a Mooca. Eu tenho amigos e parentes que moram na Mooca.

É um bairro que respira a italianidade, essa coisa que é tua também…
É, aquilo é romântico, né ? E o Juventus nada mais é que um refúgio para os italianos. Eu acho que a Mooca é um reduto dos italianos…. Hoje nem tanto, né ? (por causa da expansão imobiliária) Mas a gente continua ainda com aquele feeling, né ? Com aquela nostalgia de rever os amigos italianos e de ver o Juventus. O Juventus eu acho que é um dos clubes mais queridos de São Paulo !

A própria atmosfera da Javari proporciona isso, não é ? Essa preservação do conceito de estádio tradicional, de família…
O Conde Crespi ! A saudade dali é grande ! (suspira) Eu inclusive participei de peneiras no começo da minha carreira na Javari… É um clube que dificilmente você vê alguém de São Paulo não gostar do Juventus. É o segundo clube de todos os paulistanos !

Você enfrentou o Juventus quantas vezes ?
VÁRIAS ! (enfático) Com o São José, a Ferroviária, o Corinthians… Na Javari eu joguei muitas vezes ! Inclusive quando inauguraram o busto do Pelé eu fiz parte da Seleção Paulista que enfrentou o time de Masters do Juventus. Eu tenho a camisa daquele jogo. Foi um busto que fizeram em homenagem ao Pelé porque o gol mais bonito da carreira dele foi na Javari.

E o que era enfrentar a torcida do Juventus ?
Chata, chata, chata… (ri, pensativo) Ficavam ali atrás do gol, enchendo o saco o jogo inteiro… (ri de novo)

Isso que não tinha a Setor 2 (famosa barra brava juventina)…
E ainda mais pra mim, que ficava lá (no gol). Mas é ruim de jogar lá porque o alambrado é muito perto do gol. Pra quem joga a favor do Juventus é uma boa… Agora, pra quem joga contra, é um martírio

Você é um ídolo da torcida do Coritiba. Foi campeão brasileiro num ano decisivo, de mudanças na política nacional (1985, a Nova República). Como você vê hoje o cenário político e o futebol atual ?
Tá bem pior ! (enfático) Em 85 era a Nova República, né ? O Coritiba foi o primeiro campeão da Nova República… Não tinha TUDO ISSO que tá saindo aí , esse monte de falcatruas. Todo dia você está vendo um cara da política sendo julgado, sendo preso. São coisas que nos deixam envergonhados, porque quem pôs eles lá fomos nós ! E nós temos o direito de tirá-los de lá também.

Você é conhecido por ser direto, franco e espontâneo. Declarou recentemente que tem planos para se lançar a pré-candidato a vereador por Curitiba. Como será manter essas virtudes na política ?
O caráter do atleta, o caráter da pessoa não muda. Eu sempre fui um cara íntegro no futebol. Inclusive em 85 tentaram comprar o meu caráter e não conseguiram (relembra episódio da mala preta do bicheiro Castor de Andrade para facilitar na final contra o Bangu). Acho que são coisas que vem de berço, né ? Não apenas por ser oriundo de italianos. Meu pai era muito rígido. Meu pai era um cara que tinha servido na 2a. Guerra Mundial, foi prisioneiro de guerra, e faleceu aqui no Brasil do jeito que faleceu, sendo assassinado trabalhando no seu comércio (num assalto, na panificadora da família).

Eu li no seu livro (Rafael Cammarota, A História de um Campeão, de Gilson de Paula) Muito triste isso…
Eu acho que você tem de absorver todas essas coisas… E o fundamental disso tudo é a educação que você recebe de seus pais. Hoje a coisa se inverteu, eu vejo pela lado da minha esposa, que é professora: Os alunos hoje não respeitam os professores como nós respeitávamos. Os professores tinham de ensinar a matéria na sala de aula, mas a educação que tem de dar para os filhos são os pais, e eu acho que hoje a coisa está se invertendo. Tem gente que acha que o professor tem de dar a educação que não recebem em casa para os alunos…

O que levou você à política, num momento tão desfavorável como agora ?
O que eu propus fazer e não pude em 85. Uma fundação, a Casa do Atleta, a Casa do Idoso, uma creche. Isso me levou à política. Porque eu, Rafael, sozinho, não tenho como fazer isso, com meus recursos. Mas acho que como político eu terei como fazer. Uma Fundação, onde você vai realmente dar alguma coisa de bom, esporte, educação… Quanto à creche, esse é um sonho meu desde que eu era moleque. Eu ando na rua e vejo pessoas pedindo esmolas com crianças no colo. Acho que devemos fazer alguma coisa por elas, onde recebam roupas, calor humano. E a Casa do Idoso é fundamental. Sobre a Casa do Atleta, não diria só casa do atleta de futebol, mas de todas as modalidades. Se a gente for ver aí, tem muita gente que jogou comigo está passando por necessidades. Não está tendo nem lugar para morar. Nós (atletas) quando conseguimos um cargo político a gente tem de pensar em tudo isso que eu estou falando.

Como a categoria dos artistas em São Paulo e no Rio fazem com o Retiro dos Artistas…
Isso ! Você tem de ter um final de vida digno. Quando você está acostumado a viver nas luzes, é difícil quando elas se apagam. Você não acha um amigo, as oportunidades, uma palavra de carinho, um cara que possa estender a mão para te ajudar. Você só encontra críticas…

E tem ainda inúmeros que se perdem…
Exato, exato… Eu comparo o futebol a uma montanha de gelo. É muito difícil chegar ao topo. E quando você chega no topo, para você se manter é mais difícil ainda. E o pior de tudo isso é quando você para de jogar futebol, porque você vira uma ilha. Todos aqueles amigos que você tinham, somem. E eu senti isso na pele. (faz uma pausa) Eu fiquei em depressão por quase quatro, cinco meses. E se eu não tivesse uma família forte, uma família segura, que me apoiasse, fatalmente eu teria caído na bebida, caído nas drogas. E quem não tem ?

E isso afeta a autoestima, afeta tudo, enfim…
Sim ! E eu graças a Deus, eu estou no futebol, desde que eu parei de jogar, mas não foi em seguida. Eu demorei quase dois, três anos para voltar ao futebol. Mas se eu não tivesse o apoio da minha família, fatalmente eu teria surtado.

Falar de política hoje em dia está ficando complicado, muita gente anda indignada com tudo o que está acontecendo recentemente. O que você gostaria de acrescentar ?
Eu acho que quando o cara se propõe a um cargo público ele não tem de pensar em si. Ele tem de pensar em fazer para o povo, porque ele está recebendo para isso. Ele é um representante do povo. Nesse sentido é que eu acho que a gente deveria cobrar mais… O vereador, o deputado, o senador, o presidente… Eles estão lá graças ao nosso voto. Nosso voto eu digo, o voto do povo, o voto dos brasileiros… Eles depositaram a confiança, eles então tem de fazer as coisas boas para o povo, não em proveito próprio. Mas eles primeiro veem o lado deles, depois o do povo. E pelo jeito o lado do povo infelizmente ninguém está vendo.

Que é sempre a parte mais fraca…
E tem mais uma também, está na hora de mudar. Eu bato sempre na mesma tecla, eu hoje sou treinador de futebol, mas para entrar nesse meio foi difícil, demorei quase dez, onze anos para conseguir dirigir um clube. E se você for ver, no Campeonato Brasileiro da Série A são sempre os mesmos (treinadores)…na Série B, são sempre os mesmos, na Série C, os mesmos… Sobra o quê ? As Segundas Divisões (estaduais). E ninguém que dirige um time nas Segundas Divisões consegue chegar nas Séries C, B ou A… Isso tem de mudar.

Já que voltamos ao esporte, como você vê esse grande negócio que virou o futebol ? Em 1985 prevalecia ainda o amor à camisa…
Eu acho que o principal acabou, né ? As palavras que você falou por último: Amar a camisa, amar o clube que você joga. Eu graças a Deus amei todas as camisas por quais joguei, independentemente de ser campeão ou não. Quando eu não fui campeão, eu fui vice. Você tem de ter amor ao clube, você tem de ter carinho. Aonde você trabalha também não é diferente em outras profissões. Quanto mais amor você tiver, mais desempenho você vai ter. Infelizmente, hoje, eu não vejo mais isso. Hoje, o que simboliza um jogador de futebol é o cifrão. Quem pagar mais, o cara vai.

O lema da Setor 2, torcida juventina, é “Ódio eterno ao futebol moderno”.Você concorda com isso ?
Eu concordo, porque o futebol romântico, o futebol de amor à camisa acabou, né ? Hoje eu não digo que eles (os jogadores) estejam errados, mas o que eles ganham hoje é uma exorbitância. Eu acho que nem mesmo os clubes aguentam mais pagar estes salários, mas os culpados disso foram os dirigentes (enfático). Se chegou à este ponto é porque eles deixaram. Eu acho que jogador de futebol teria de ser um funcionário comum, como nos outros empregos. Você teria de ter um teto salarial, a começar do mais baixo até o mais alto. Isso eu venho falando há muito tempo. Quantas pessoas ganham 30, 40 mil ? Esse é o problema. Esse é o nosso problema. Na Europa, eles pagavam salários exorbitantes, hoje tem gente saindo da Europa pra vir jogar aqui no Brasil.

A mesma Europa de times bancados com dinheiro de origem bem duvidosa…
É, mas são caras que compram os clubes e investem em jogadores para ter retorno. Um retorno maior do que deixar o dinheiro nos bancos. Haja visto um time da Itália, que foi comprada por chineses, aquele do Berlusconi (se refere ao time do Milan). Mais de 50% do time é dos chineses. Infelizmente o dinheiro está comprando tudo…

Só não compra a virtude e a honra…
Comigo não compra a minha honra, não compra o meu caráter, não compra as minhas virtudes… Eu sempre pensei assim: Eu acho que dinheiro não é tudo na vida não. Sem dinheiro você não faz nada, mas você tem de fazer por onde pra ter seu dinheiro honestamente, não desonestamente. Meu pai dizia isso. O que é dos outros, é dos outros. O que é seu, é seu. Tudo o que você toma dos outros, acaba em final ruim. Se ladrão fosse profissão, todo mundo seria ladrão. Olha o fim deles… O fim deles é triste. Então, como diz o meu amigo Datena, o crime não compensa… Um dia a casa cai. E está caindo em Brasília. Infelizmente pra eles e felizmente para nós.

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2 comentários

  1. Gatãozinho disse:

    Parabens gostei muito das perguntas e respostas ..Bom Demais…abrs.

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    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Obrigado, Gatãozinho !!! Seu elogio é uma honra ! Um grande abraço !

    [Reply]

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