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Entrevista: José Pezzolato, nosso eterno goleiro Nenê

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8/12/16

Nenê, em três momentos: Sem luvas, com o icônico manto negro juventino; atuando como modelo, após encerrar a carreira, e numa foto recente, ao lado  de sua  esposa Rita

José Pezzolato. Mas nos campos de futebol, era Nenê, O goleiro. Paulistano, de sangue italiano. Viveu intensamente a era romântica do nosso futebol. Iniciou nas divisões de base do São Paulo. Fez nome no cenário varzeano. Virou ídolo no Linense, onde frequentemente era eleito o melhor da rodada. Tentou uma vaga nos Aspirantes do seu Palmeiras, mas veio mesmo é para o nosso Juventus em 1958 fazer parte de um belo time, um belo esquadrão que tinha “apenas” nomes como Clóvis Nori, Pando, Buzzone, Carbone, Cassio, Zeola… Boa-pinta, arrancava suspiros femininos nas arquibancadas onde jogava. Tem uma linda família. Guarda boas lembranças na Javari com Djalma Santos, e Pelé. Sofreu uma séria contusão lombar num Dérbi dos Imigrantes de 1962, que o afastou dos gramados por 14 meses e deixou marcas indeléveis. Ainda assim, prosseguiu no futebol, e defendeu as metas do Comercial paulistano, Bragantino e Jabaquara (onde encerrou a carreira, em 1967). Modelo de goleiro em campo, virou modelo em propagandas de marcas de roupas, mas depois que parou de jogar viu que seu negócio era mesmo vender ônibus. Uma pessoa amável, comunicativa, dono de ricas memórias, mas plenamente antenado em nosso tempo: Vive ativamente nas redes sociais, onde se comunica com seus amigos (e onde o encontrei, entre uma postagem e outra). Tenho o privilégio de chamá-lo de amico mio (meu amigo, em italiano). Aqui, ele nos conta um pouco de suas histórias. Histórias  de uma vida espetacular, nos anos dourados do futebol.

Obrigado pela imensa honra em conceder esta entrevista. Vamos começar pelos clichês: Qual a origem do apelido Nenê e se ser goleiro foi vocação ou consequência… O apelido veio de minha amada mãe, quanto mais eu protestava com meus amigos na infância mais foi pegando e até hoje sou chamado assim… E a posição de goleiro foi pura vocação e amor. Iniciar no futebol hoje em dia é muito diferente de tempos atrás.

Conte para quem não viveu a época maravilhosa dos times de várzea, e o que eles representavam a todo aspirante a jogador Antigamente era puro amor à camisa e ao esporte, dinheiro nem se pensava nessa possibilidade porquê também não tínhamos essa avalanche de empresários e mídia que vemos hoje. Na minha época dos grandes nomes do futebol, era a paixão que dominava os gramados. Só tínhamos o Campeonato Paulista, não tive a oportunidade de jogar Brasil afora como hoje, nessa globalização.

No Linense, entre Dario e Julinho

                                                             No Linense, entre Odail e Julinho

Você é ídolo no Linense. Conte-nos um pouco de seus momentos mais marcantes na equipe de Lins… Ídolo não sei se é bem a palavra, mas sei que fiz e joguei o meu melhor… Minha estreia em Lins foi contra o Santos de Pelé na Vila Belmiro, onde perdemos de 7 x 1 e fui considerado o melhor jogador em campo, por ter feito 24 defesas, entre elas,  um pênalti… Consideradas difíceis pelos narradores e comentaristas da época. Feitos que constam nos jornais A Tribuna de Santos,  Gazeta Esportiva e outros jornais na época. Meu peito no final do jogo era um vermelhão só. Mas faria tudo novamente. Jogando pelo Linense fui escolhido várias vezes o melhor da rodada e o melhor prêmio da época – veja você –  era um relógio de pulso Mondaine. Era uma equipe do Thomaz Mazzoni,  da Gazeta Esportiva que avaliava no final de cada jogo,  e o melhor entre os onze era premiado.

No Juventus, você foi contemporâneo de Clóvis Nori, Pando, Buzzone, Carbone, Zeola, Cassio… O que era jogar naquele mítico Juventus dos anos 60 ?  O sonho de estar ali realizado como profissional e ao lado de feras como eles era pura emoção e realização, dava gosto de viver tudo aquilo.

Dois momentos, duas históricas formações do Juventus. Em grená: Nenê, Arnaldo, Carbone, Buzzone, Vianna e Renan. Agachados: Julinho, Cássio, Pando, Clóvis e Ditão. Com o uniforme branco: Treinador Grambel, Julinho, Nenê, Sérgio, Clóvis, Pando, Cássio e Pucci (Dirigente) Agachados: Zeola, Carbone, Buzzone, Viana e Neves.

Dois Juventus memoráveis. Em grená: Nenê, Arnaldo, Carbone, Buzzone, Vianna e Renan. Julinho, Cássio, Pando, Clóvis e Ditão.  Com o uniforme branco: Treinador Grambel, Julinho, Nenê, Sérgio, Clóvis, Pando, Cássio e Pucci (Dirigente). Zeola, Carbone, Buzzone, Viana e Neves.

Dentre os momentos – únicos, lendários – vividos na Javari, posso citar dois, de 1958 ? – Um, numa atuação impecável contra o Santos de um jovenzinho chamado Pelé e um certo encontro com Djalma Santos após vencer a Lusa ? Ou houve algum ainda mais memorável ? Mais do que jogar contra Pelé no seu primeiro jogo após ser campeão do mundo em 1958 é difícil de acontecer, mesmo perdendo o jogo de 2 x 0… Foi realmente O JOGO!!! (enfatiza) Jogar contra a Lusa e em especial contra Djalma Santos era outro feito marcante, mas haviam também: Cássio, que  hoje mora na Bélgica e conversamos toda semana via internet; Ipojucan, Ocimar, Cabeção, Servíllio, Brandãozinho e outros de nomes não tão famosos mas eram jogadores que se hoje estivessem em campo todos veriam realmente o que é FUTEBOL !

Qual foi a sua maior decepção e a sua maior glória no futebol, Nenê ? A maior decepção e tristeza foi realmente a contusão no auge da carreira, que na época até convite para jogar na Itália eu recebi… A maior glória foram os prêmios que já citei e conviver com feras como Pando, Pelé, Cassio, Zeola, Carbone, entre outros craques.

Certa vez,  folheando uma revista, minha mãe o viu num anúncio e disse : “Esse goleiro do Juventus era um pão (risos)… Muitas moças iam aos estádios só para vê-lo jogar”… Como era esse lado, o das fãs, nessa época ? E como foi a experiência de ser modelo para propagandas ? Me sentia lisonjeado tanto em Lins quanto na Javari, realmente era bom ter as fãs. Ser modelo foi consequência, mas nunca fiz como profissão. Na época já atuava como vendedor de ônibus (na fábrica de carrocerias Caio) onde permaneci por 38 anos.

Você sofreu duas sérias contusões no futebol – Uma, a lesão lombar num choque casual, contra o Ipojucan, que lhe rendeu 14 meses de afastamento, e outra, quando ficou inconsciente no Comercial, após uma bolada, que assustou seus companheiros. As jogadas nessa época eram leais ? Ou já haviam aqueles que só miravam as canelas ? Também… A contusão da coluna o jogador tinha a possibilidade de pular mas não o fez, preferiu atingir minhas costas e foi o começo do fim da minha carreira…No Comercial, o Osvaldo (ponta-esquerda) no aquecimento,  antes do jogo,  chutou com muita força e pegou na nuca. No mesmo jogo,  uma bolada que antes pegou na trave e depois na minha cabeça, me levou a nocaute. Fiquei desacordado e quando dei por mim já estava sendo levado para casa. Perdi realmente a memória do que havia acontecido, e o pior de tudo, em nenhuma das contusões tive respaldo dos clubes… Assistência praticamente zero.

O que era mais fácil, Nenê ? Defender um pênalti ou vender um ônibus ?  Sempre acreditei que nasci para ambas profissões, sou vendedor nato e o futebol, como goleiro, era além da paixão – era vocação. Essa pergunta é muito difícil, mas arrisco a dizer que o pênalti é mais difícil !

Faço essa mesma pergunta a todos os entrevistados: Como você vê o futebol-negócio de hoje ? Ele matou o futebol romântico, de amor à camisa e aos clubes ? Sem dúvidas que sim, mas entendo que (os jogadores) devam fazer seu pé-de-meia hoje, sendo o futebol uma carreira curta como é. Os jogadores tendo a chance de fazer bons contratos, não devem perder…  Mas esquecer o amor pela camisa por completo como está hoje, é triste.

E para encerrar, deixe uma mensagem à torcida juventina, nosso eterno goleiro Nenê ! Agradeço pela oportunidade e parabenizo a torcida apaixonada pelo clube, o  Moleque Travesso… Bons tempos… Hoje a situação não é das melhores,  mas acredito que ainda coisas boas acontecerão por lá ! Juventus, clube querido por tantos ! Segundo clube de muitos, tem que voltar para seu devido lugar… Aproveito para lembrar do nossos encontros anuais que infelizmente acabaram,  era tão importante e bonito para nós, veteranos…

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6 comentários

  1. José Pezzolato disse:

    Parabéns Marcos
    fiquei muito feliz pela consideração e homenagem.
    Muito bem escrita e ilustrada, vc eh uma pessoa muito do bem.
    estou muito feliz em conhecer. Mais uma vez obrigado.

    [Reply]

    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Eu quem lhe agradeço imensamente pela sua disponibilidade, carinho e amizade. Cabe a nós, “torcedores-cronistas”, enaltecer atletas como o senhor, numa época onde o talento com os pés (e mãos…) valia mais que o intere$$e. Parabéns pela carreira, pela linda história de vida. Um fraternal abraço. Do tamanho da Javari.

    [Reply]

  2. António Medina Filho disse:

    Parabéns Nenê, José Pezzolato,meu querido amigo e eterno Gerente Comercial de Vendas de Ônibus, excelente reportagem,rica em detalhes e emoções.
    Abraços de seu amigo e pupilo Botafoguense Medina.

    [Reply]

    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Obrigado pelos elogios à matéria, Medina !

    [Reply]

  3. Waltinho e Eloisa disse:

    Parabéns Nenê, José Pezzolato, nosso querido e eterno primo.
    Emocionante e linda entrevista.
    Abraços, Waltinho e Eloisa

    [Reply]

    Marcos "Marcuccio" Caiafa Reply:

    Obrigado, Waltinho e Eloisa !

    [Reply]

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