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[Ênnio Rodrigues] Adeus, barítono do rádio

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13/08/13

Eu tinha pouco mais de dez anos. As crianças de minha época foram justamente aquelas que trocaram as brincadeiras de rua pela televisão. E torcer pela Portuguesa não era o único ponto a me fazer remar contra a maré. Enquanto meus amigos pediam aos pais um videogame de última geração, daqueles Nintendo ou Sony que se renovavam a cada seis meses, eu pedia aos meus um rádio Motobrás que era não apenas AM e FM, mas ondas curtas e ondas médias. Captava tudo em qualquer lugar. Um trambolho de cor prata, a pilha e a energia elétrica, bivolt, que tenho até hoje como meu xodó. Eles ficavam horas babando em frente a televisão. Eu varava tardes de estação em estação ouvindo tudo sobre futebol.

Não sei dizer se foi o futebol que me aproximou do rádio ou se o rádio me aproximou do futebol. Enquanto meus amigos passavam de fase e zeravam seus jogos no começo das noites, eu não perdia sequer um “Programa Rubro-Verde”. A internet engatinhava, não havia pay-per-view na TV e os jornais, além de começarem a deixar de falar do meu time, eram entediantes. Meu clube era tão especial que tinha um programa de rádio próprio. Olha que mágico! Vivia em um mundo-bolha. Tudo sobre a Lusa você conferia ali. Aliás, só havia como conferir por ali. E ali havia um narrador. Ou melhor, havia o narrador.

O primeiro locutor esportivo que ouvi na vida, e digo sem medo de errar, foi Ênnio Rodrigues. Na Equipe Líder, aquela que frisava a todo momento que cobria a Portuguesa com exclusividade desde o início dos anos 70, ele era a estrela máxima. Durante a semana eu acompanhava seus comentários ao lado de Antônio Quintal sobre tudo que acontecia no Canindé. Uma hora de programa, das oito às nove, apesar de ter variado várias vezes. Porém, eu gostava mesmo era das jornadas esportivas. Garoto de tudo, descobrindo meu time e aprendendo a gostar de futebol, eu sabia de cor e salteado as vinhetas do programa e das jornadas. Se tinha jogo fora do Canindé, lá estava eu. Radinho ligado, ouvido colado, coração acelerado.

Tomando a frente do “Boing da Emoção de Armando de Barros” estava ele: Ênnio Rodrigues. Aquele vozerão invejável, que enchia as ondas do rádio. “Alô gente de todo Brasil” sinalizava a entrada de Ênnio no ar antes das transmissões. Aquele homem proporcionava a mim uma emoção que eu ainda não conhecia. Emoção que crescia com o bordão “trila o apito o árbitro”, sinal de que o jogo estava começando. Com ele a gente sabia no tom de voz e na escolha dos seus termos consagrados como o time estava. Ouvi muitos “Aaaaaaaave Mariiiiiiiiaaa” quando a Lusa decepcionava em campo.

Ali começava minha paixão por futebol. Paixão pelo meu clube. E a paixão pelo rádio. Sonhei ser como ele. Ser locutor esportivo. Debaixo do chuveiro não cantava, narrava. Narrei inúmeras vitórias e títulos que jamais vi, mas que minha imaginação criava. Eis o encanto do rádio. Cresci e mudei de ideia, quis escolher o jornalismo. Mas, será? Saí do colégio, prestei vestibular e passei em duas faculdades: Relações Internacionais ou Jornalismo? Na hora de optar entre a razão e a emoção, optei por aquilo que Ênnio me instigou quando criança. E aqui estou.

Ênnio Rodrigues poderia ter sido apenas o cara que narrava os jogos da Portuguesa em um dial decorado apenas por torcedores lusitanos que ainda assim seria, para mim, o gigante locutor esportivo. Contudo, Ênnio foi muito mais que isso. Ênnio fez parte da primeira linha do rádio esportivo brasileiro. Ênnio foi do scratch do rádio. Da potência Bandeirantes de Fiori Gigliotti. Ênnio narrou oito Copas do Mundo. Ênnio empunhou os mais tradicionais microfones esportivos do país e fez da vida de milhares de ouvintes um turbilhão de emoções. Ênnio foi presidente da Associação de Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo. Ênnio foi “o barítono do rádio esportivo”.

“Eram decorridos 78 anos de luta” quando o juiz do mundo “trilou o apito”. Sim, aquele vozerão que fez parte de minha infância, que marcou minha vida pessoal e profissional, que me deu tantas emoções, que mesmo que indiretamente me motivou a escolher um rumo e que era tudo que eu esperava ouvir em inúmeras tardes de sábado, calou-se. O “moço de Araraquara”, como diria seu contemporâneo de rádio e de sucesso Fiori Gigliotti, coloca-se eternamente no “cantinho da saudade” do rádio brasileiro. Ênnio não precisava de muito para ser o que era. Era simples, direto, objetivo. Enquanto muitos buscarão até o fim dos tempos uma definição para o futebol, há décadas Ênnio Rodrigues já sacramentava: “o que vale é bola na rede”.

Por Luiz Nascimento

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12 comentários

  1. Eduardo Elias Dos Santos disse:

    sem duvida Ênio Rodrigues , já esta fazendo falta para quem sempre amou uma bela narração de futebol e o que vale é bola na rede! descanse em Paz grande HOMEM!

    [Reply]

  2. Tiago Cabral disse:

    Encantou minha infância também! Fiquei triste com a sua morte

    [Reply]

  3. Fernando Mendes Julio disse:

    Perfeito Luiz! Também fui dessa geração de parar tudo, largar video game, etc para ligar o rádio e ouvir as novidades the Lusa e ouvir claro os comentário do Ennio… Assim como ouvir sempre os jogos the Lusa pela sua narração… Esse compilado de áudios dele é sensacional e totalmente nostálgico! Parabéns pelo texto! Sensacional!

    [Reply]

    Luiz Nascimento Reply:

    @Fernando Mendes Julio, Muito obrigado, Fernando! Quando montei o áudio pensei a mesma coisa: que saudades daqueles tempos!

    Saudações Lusitanas!
    Abraço!

    [Reply]

  4. Fernando Mendes Julio disse:

    Perfeito Luiz! Também fui dessa geração de parar tudo, largar video game, etc para ligar o rádio e ouvir as novidades the Lusa e ouvir claro os comentário do Ennio… Assim como ouvir sempre os jogos the Lusa pela sua narração… Esse compilado de áudios dele é sensacional e totalmente nostálgico! Parabéns pelo texto! Sensacional!

    [Reply]

    Luiz Nascimento Reply:

    @Fernando Mendes Julio, Muito obrigado, Fernando! Quando montei o áudio pensei a mesma coisa: que saudades daqueles tempos!

    Saudações Lusitanas!
    Abraço!

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  5. Mirian Rodrigues Caraça disse:

    Luis, sou Mirian, filha do Ennio Rodrigues.
    Estou aqui, emocionada, bem como minha família, lendo sua maravilhosa crônica sobre meu amado PAI!
    Que Deus abençoe sua vida por tão ternas e agradecidas palavras!
    Realmente meu amado é um exemplo de vida, de princípios, que nunca se rendeu ao que não fosse correto e que, em nossas vidas, personificou a palavra AMOR!
    Amamos nosso PAPAI ENNIO, para além the eternidade, tamanho do amor que ele nos ensinou!
    Obrigada, Luiz Nascimento!

    [Reply]

  6. Mirian Rodrigues Caraça disse:

    Luis, sou Mirian, filha do Ennio Rodrigues.
    Estou aqui, emocionada, bem como minha família, lendo sua maravilhosa crônica sobre meu amado PAI!
    Que Deus abençoe sua vida por tão ternas e agradecidas palavras!
    Realmente meu amado é um exemplo de vida, de princípios, que nunca se rendeu ao que não fosse correto e que, em nossas vidas, personificou a palavra AMOR!
    Amamos nosso PAPAI ENNIO, para além the eternidade, tamanho do amor que ele nos ensinou!
    Obrigada, Luiz Nascimento!

    [Reply]

  7. Mirian Rodrigues Caraça disse:

    Meninos Luiz e Fernando, tem como nos presentear com esse áudio?
    O texto eu já copiei e guardarei com muito amor, assim como todas as lindas homenagens que meu amado pai recebeu.
    Mas não sei como guardar esse áudio.
    Agradeço se puderem enviar ao meu e-mail, com os devidos créditos, é claro!
    Fiquem com Deus!!!

    [Reply]

  8. Luiz Nascimento disse:

    Mirian, você não faz ideia do quanto fiquei surpreso, emocionado, honrado e lisonjeado com o seu comentário. Sempre gostei de rádio, de futebol, de jornalismo esportivo e de seus grandes nomes. Estou no fim do meu curso de jornalismo, já trabalho no meio e escrevo na internet há pelo menos 3 anos. Faço, acima de tudo, porque gosto. E porque pessoas como o seu pai me ensinaram a admirar este meio. E, com tudo isso, pela primeira vez na minha vida, tendo este retorno inesperado e maravilhoso seu, vejo minhas escolhas ganharem um sentido.

    Ênnio Rodrigues fez parte da minha infância. Deu voz a grandes emoções que senti com meu clube e que são, sem medo de errar, as maiores que tive na vida. Está impregnado na minha trajetória pessoal e profissional. Quando tive a notícia, senti não como se houvesse perdido um grande exemplo a ser seguido, mas como se aquele profissional que tanto admirei e que sempre admirarei eternizara-se na história do rádio, do futebol e do jornalismo esportivo.

    Assim como jamais pensei que minha homenagem estivesse a altura do que seu pai representou, jamais imaginei que este texto fosse chegar a algum familiar dele. É aí que vejo minha ainda ínfima trajetória ganhar sentido. Por meio daquele que tanto admirei e, em vários aspectos, espelhei-me, tive o primeiro sinal de que talvez tenha feito a escolha correta. Meu texto chegar até vocês é algo tão gratificante que não sei expressar em palavras. E é também de uma responsabilidade sem tamanho.

    Agradeço seu comentário e espero, de verdade, que tenha de algum modo homenageado o grande homem que sempre admirei. Não tenha dúvidas de que seu pai marcou a vida de muitas pessoas, inspirou a trajetória de tantas outras e ficará marcado para sempre como um dos gigantes da história do rádio. Que Deus os conforte e que, na certeza de que o Ênnio está no melhor dos lugares, saibam que tiveram o privilégio de ter um homem desses na família. Parabéns pelo pai, pelo avô, pelo exemplo. E muito, mas muito obrigado mesmo, pelo seu comentário. Você não imagina o quão importante ele foi para mim.

    Enviarei o áudio por mensagem aqui pelo Facebook. Fiz uma compilação de alguns gols que eu gravei há alguns anos, arquivo pessoal mesmo.

    Um grande abraço a toda família,
    Luiz Nascimento

    [Reply]

  9. Mirian Rodrigues Caraça disse:

    Parabéns, Luiz, por conciliar trabalho e amor!
    Não se vê muito isso, hoje em dia!
    Somos nós, da família ENNIO RODRIGUES CARAÇA, que agradecemos seu carinho, admiração e respeito pelo nosso amado!!!
    Eternamente…

    [Reply]

  10. Orival Leonardi disse:

    ENIO RODRIGUES, o moço de Araraquara, frase muitas vezes pronunciadas por Fiore, outro MONSTRO DO RÁDIO ESPORTIVO.

    Me recordo perfeitamente dos anos em que o Ênio Rodrigues
    trabalhava na BANDEIRANTES, a imbatível emissora esportiva
    do Brasil

    abraços a todos seus familiares

    [Reply]

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