Estava tudo muito diferente. Estava tudo muito familiar. Por mais estranho que possa parecer, os antagonismos se confundiam. Havia tempo que, nós fiéis, não víamos aquela cena. Rostos estranhos a uma sexta-feira à noite. Rostos comuns às tardes ensolaradas de tempos de glórias. Tão distantes, porém, tão próximos. Avôs, pais, filhos e netos juntos, estampando um sorriso genuíno, merecido, tão aguardado. No dia da consagração daquela que fez todos voltarem a sentir o gosto da felicidade, os que pelo amargo gosto da desilusão se abstiveram, voltaram ao templo maior da paixão lusitana. Neste dia, o qual muitas retinas guardarão seus detalhes até o último piscar de olhos, o Canindé não era o mesmo. Porém, no fundo, era.
Os fiéis, os espartanos, os heróis, os guerreiros, os amantes, os apaixonados, os lusos nossos de cada rodada, já não reconheciam mais o Canindé. Quem quisesse chegar cedo para tranquilamente comer seus bolinhos de bacalhau, conversar com os patrícios, dar uma volta pelo clube, passar pela gruta de Fátima, ou seja, seguir sua rotina, já não conseguia. No entanto, mesmo com todos os protocolos sendo quebrados e com a tradição de rodadas a fio ficando para trás, o sentimento era de alegria. Após ásperos anos de decepção em um lugar ao qual aquela que nos uniu não merecia estar, finalmente a torcida lusitana voltava a dar as caras.
Os mesmos rostos que, aos poucos, de tão cansados e fatigados foram se distanciando de sua paixão, voltavam alegres, renovados, revigorados. Como têm de ser. Há um motivo para que eu diga que ao mesmo tempo em que tudo estava diferente, tudo estava igual. Estes rostos atípicos voltaram a aparecer quando o clube amado por eles voltou a ser o que sempre foi. A Portuguesa voltou a ser a nossa Portuguesa. A Lusa voltou a honrar sua história, suas glórias e suas tradições. Nessa maré de resgate, só faltava o dos torcedores. E foi isso que se viu no Canindé. Justo em um dos embates mais difíceis e mais importantes do ano. Nossa eterna gigante rubro-verde dependia de uma vitória sobre aquela que, aos trancos e barrancos, ainda mostrava alguma esperança de nos derrubar. Um jogo difícil, mas com uma festa nada difícil de ser feita quando se trata da verdadeira Portuguesa.
Diante de um Canindé lotado, rubro-verde, pulsante e arrepiante, a Portuguesa entrava em campo para ser coroada. Uma coroação por seu resgate, por sua volta por cima, por sua honra. Uma Lusa completamente diferente daquela da última década, mas semelhante àquela que eu gostaria de ter visto mais. Aquela cuja tradição era honrada por verdadeiros Leões nas arquibancadas, aquela cujo apelido mais fielmente retratava o que sempre foi dentro de campo, Fabulosa. Pela frente, uma tradicional rival, um adversário de outros carnavais, enfim, um time digno para uma grande festa que, entre tantos outros fatores, exaltava o reerguer da tradição do futebol paulista e brasileiro.
No gramado, uma Rubro-Verde que todos enfrentam ávidos a derrotar, mas que poucos conseguem. Um esquadrão mais do que entrosado, bem postado, que joga por música, que tem seu estilo próprio de jogo, que é oportunista e que tem muita qualidade. Os adversários remaram contra a maré que empurrou quase todos os que tentaram a sorte contra nós, vieram para atacar, para cutucar, achando que podiam nos dominar. Ledo engano. Bastou a primeira parte do jogo para que a fatura estivesse liquidada. Ataques bem articulados, pontuais, cirúrgicos, letais. Com duas bolas na rede ainda no primeiro tempo, a Lusa teve a condição de administrar o confronto na segunda etapa. Os rivais ainda descontaram, tentaram decepcionar a brilhante torcida rubro-verde, mas não conseguiram.
Antes mesmo do apito final, o torcedor luso já soltava um grito que há muito estava entalado na garganta. Um grito de campeão. Mas uma comemoração que vai muito além de festejar um título. Uma comemoração que vai além até do fato de muitos jamais terem visto a Lusa ser campeã. A força que vinha de dentro do torcedor luso para soltar o grito de campeão tinha origem em um sentimento maior. Do recompensador sentimento de ver sua Lusa de volta ao seu lugar. De ver sua Portuguesa voltar a ser grande, aliás, gigante. Uma alegria que transcende a simples conquista. Uma alegria que faz do título algo muito maior do que leigos olhos de outras torcidas são capazes de enxergar. Só nós, lusos das horas boas e ruins, sabemos o que carrega nosso grito de campeão.
No campo, os protagonistas disso tudo. Wéverton, a muralha das horas mais difíceis, a emoção dos momentos mais tranqüilos. Luis Ricardo, uma jóia bruta que custou temporadas para encontrar quem o compreendesse e valorizasse. Leandro Silva, o típico defensor brioso que o lusitano gosta. Renato, o paciente zagueiro que esperou o momento certo de dar sua preciosa contribuição. Marcelo Cordeiro, o craque que os olhos gananciosos ignoraram. Boquita, o garoto que chegou no lugar certo, na hora certa. Guilherme, aquele que faz jus ao celeiro de craques que é o Canindé, o verdadeiro leão que todo luso valoriza e se identifica. Marco Antônio, o apagado maestro que encontrou seu brilho por entre os feixes de luz rubro-verdes. Henrique, o jovem rápido e habilidoso, a prata da casa em constante garimpo. Ananías, o pequeno gigante que colocou fogo na linha de frente da Lusa. Edno, o vilão que, pela humildade, virou herói, aquele que deu a volta por cima junto com o clube.
A gratidão da torcida rubro-verde é infinita. Não se enganem Rogério, Mateus, Jaime, Ivan, Raí, Ferdinando, Ivo, Júnior Timbó, Cleiton, Lucas Gaúcho e tantos outros do elenco que, direta ou indiretamente, contribuíram para esse ressurgimento da Portuguesa. No entanto, mais importante que todos é aquele que trouxe a quase todos, aquele que os comanda, aquele que abriu os olhos da própria torcida lusitana para o fato de que a Portuguesa é maior que qualquer um. Aquele que sempre teve a noção de que tudo e todos passam, a Lusa é quem fica. O filho que à casa tornou. O homem que voltou para vencer. O ser humano que enfrentou muitas dificuldades na vida, que deu a volta por cima em todas e que é responsável pela alegria de milhares de corações rubro-verdes. Jorginho.
Jamais esqueceremos este time, esta campanha, este campeonato, esta temporada, este ano. Jamais esqueceremos o ressurgimento da nossa Portuguesa. O completo espetáculo rubro-verde no Canindé jamais deixará minhas retinas. Uma emoção única, indescritível e inexplicável. A coroação não só do time, mas também da torcida. Daquela que verdadeiramente merece tudo isso. Daqueles que enfrentaram sol e chuva, terças e sextas, viagens e caravanas, aqueles que muitas vezes abriram mão de muita coisa para estar ao lado de seu time de coração, aqueles realmente amam o clube, aqueles que são o clube. Afinal, a Portuguesa somos nós. Jamais nos esqueçamos de que fazemos parte de uma grande família, da qual muito temos que nos orgulhar. Assim como não podemos esquecer que em nossas glórias temos a certeza de que a Portuguesa é grande e que dentro de campo, para nós, a Lusa é sempre um time campeão.
Obrigado por tudo, Portuguesa.
“Haja o que houver. Passe o que passar. Aonde for jogar, lá eu vou estar com você, Lusa!”
Por Luiz Nascimento




October 29th, 2011 at 7:45 pm
Parabens Luis
Mais um primor de texto escrito com o coração,
Essa serieB foi o renascimento do Gigante
A LUSA É NOSSO AMOR
A LUSA É PURA PAIXAO
LUSA EU TE AMO
Carlos Alberto
blog eternamente Lusa
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October 29th, 2011 at 8:06 pm
lindo , muito lindo
parabens pelo texto
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October 29th, 2011 at 9:24 pm
Realmente lindo demais!
PARABÉNS pela descrição Luiz e como a noite de ontem foi gostosa demais!!!
Abraços à nação rubro-verde!
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October 29th, 2011 at 10:00 pm
Belo e emocionante texto.
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October 30th, 2011 at 10:16 am
PARABENS….ORGULHO DE SER LUSA….
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October 30th, 2011 at 11:23 am
Luiz,
Parabens….reflete exatamete o sentimento dessa sexta a noite !
Esse dia 28 de outubro de 2011 vai ficar marcado pra sempre nas nossas memórias !!!
Parabens LUSA !!!
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October 30th, 2011 at 12:12 pm
Dizer mais o que.
Parabens Luiz
Parabens LUSA….
Nosso orgulho de ser LUSA, está cada vez maior.
Abs.
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October 30th, 2011 at 4:54 pm
Como foi gostoso ver o Canindé lotado de lusitanos daquele jeiro…
Dá-lhe LUSA !!!
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October 30th, 2011 at 7:31 pm
Emocionante. Irretocável. Escrito com a tinta que sai diretamente do coração. Parabéns, Luis.
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October 30th, 2011 at 8:21 pm
Como a BARCELUSA , lindo e maravilhoso , escrito com todo o coração Luso .
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October 30th, 2011 at 10:25 pm
Simplesmente maravilhoso!!
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October 31st, 2011 at 7:03 pm
Ótimo texto, de quem entende o que é ser torcedor da Portuguesa. Parabéns a todos nós que torcemos pela LUSA do Canindé !
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