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Maracanã: a coragem e o temor na saga lusitana

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15/09/13

Pareciam os Reis Magos. Quatro insanos lusitanos, que haviam decidido na noite anterior ver a Lusa jogar no “novo” Maracanã, vagavam perdidos pela “cidade maravilhosa”, olhando para o alto e seguindo Cristo – o Redentor. Não faziam ideia de onde ficava o estádio e não se preocuparam sequer em dar uma olhada num mapa antes de sair de São Paulo. Chegaram na Avenida Brasil, a Marginal sem rio, mas não sabiam o que fazer. O gordinho do posto tentou explicar, mas a única coisa que entenderam é que teriam de passar embaixo da tal Linha Vermelha. Aquela que, segundo ele, “não tem como não ver”.

Não tinha mesmo. No entanto, mal sabiam eles que alguns minutos depois estariam – sabe-se lá como – nela, trafegando sobre uma visão encantadora: à direita, favela; à esquerda, favela também. Perguntaram a um guarda de trânsito, que recomendou procurar outro, mais experiente que ele. Perguntaram a um pedreiro que saía do serviço. Porém, o trabalhador era tão carioca quanto eles. Perguntaram a um policial, que só soube dizer que era preciso subir um viaduto. Depois a um praieiro que voltava pra casa, ao mesmo tempo em que um torcedor do Fluminense já xingava do alto de um ônibus. Os cariocas pareciam as pessoas mais desinformadas e perdidas do mundo. As únicas indicações que batiam eram: Viaduto, São Cristóvão, Leopoldina.

Portanto… sobe viaduto, erra alça, pega rodovia, dá volta, retorna pela Vermelha, desce sentido centro, encontra placa pro Maracanã, somem placas pro Maracanã, o GPS do celular resolve funcionar, o sinal da internet resolve cair, o trânsito começa a parar, a noite começa a chegar, a placa volta a aparecer, o lugar começa a ficar mais feio, a sensação de que a hora chegou cresce, o Cristo já pode novamente ser visto, surge um clarão no meio da cidade, luzes multicoloridas, viaduto acima, viaduto abaixo, chegou! Ali estava! Estádio Jornalista Mário Filho! O Maracanã!

Para-se. Pergunta-se ao guarda onde se pode estacionar. Ele alerta que o estádio ainda não tem estacionamento e que o melhor é deixar o carro na UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Mais a frente, um outro guarda aponta o portão da faculdade e resolve tranquilizar: “podem ficar despreocupados, andar com a camisa da Lusa, afinal, a torcida do Fluminense é florzinha, digo, simpática”. Pronto. Carro estacionado, manto trajado. Mal sabiam eles que a falta de sinalização pra chegar ao estádio seria compensada por uma… simpatia exagerada.

Nunca ouviram tantos “boa noites” em um intervalo de tempo tão curto. Em volta do estádio, de dez em dez metros, havia um ser vestido de preto com um boné vermelho indicando onde comprar ingresso e onde entrar no estádio. Ouviram “ao lado da estátua do Bellini” umas 50 vezes, “bilheteria 4” umas 100 vezes e “entrada É” umas 500 vezes. Vascaínos brincavam sobre a sapecada no meio da semana. Botafoguenses e flamenguistas pediam que a Lusa afundasse o Fluminense para a zona de rebaixamento. Finalmente o clima era bom e o lugar era bonito. Só não era cheiroso, com um córrego de incomodar até vizinhos do Tietê.

Os do boné vermelho pareciam ser mais numerosos que o próprio público pagante. Indicavam local, batiam foto, faziam pesquisa, puxavam conversa, davam bexiga e até… pintavam o rosto da torcida com as cores do clube! Banheiro de shopping, lanchonete do Bob’s, cadeiras confortáveis, visão ampla, telões de cinema, iluminação perfeita, policiamento numeroso. Era primeiro mundismo demais para aqueles simples torcedores pouco afeitos ao tal futebol moderno. O mesmo que não deixa a bandeira ficar esticada no parapeito e torcedor trocar provocações com o adversário em uma distância gigante dentro do próprio estádio.

Os adversários entraram vestidos de gari, da cor da bola para neve do Brasileirão. Já Lusa, com a cisma do branco fora de casa. Guto Ferreira, o gordinho que deu cara a Rubro-Verde, vinha com mudança. Souza era desfalque e dava lugar a Wanderson, recém-contratado que não mostrou muita coisa. O goiano mal assoprava o apito e a Portuguesa já partia pra cima. Pressionou nos primeiros minutos, perdeu chances com Bruno Henrique, Diogo e Gilberto. O apoio de Luis Ricardo era bom. Parecia que o domínio da partida seria lusitano. Porém, só parecia.

Sentindo bastante a falta de Souza, a Lusa foi se retraindo. Meteu a bunda no gol e de lá não saiu. O Fluminense começou a crescer, criar chances e gostar do jogo. Sorte que a mira dos homens do “pofexô” não era das melhores. Para a Portuguesa só restavam os contragolpes. E foi num deles, quando não era melhor em campo e quando mais tinha chances de sofrer gols, que Diogo aproveitou um cruzamento cabeceando como manda a cartilha e cumprindo a promessa de balançar as redes no Maracanã. Festa da torcida lusa, que ia para o intervalo consciente da realidade.

“Todos os ataques deles são nas costas do Rogério”, “nosso lado esquerdo é uma avenida”, “hoje o Bruno Henrique não está bem”, “não sei qual goleiro está mais ridículo na reposição de bolas”, “o time está recuado demais”, “tem que aproveitar que conseguiu fazer esse golzinho”, “só não pode voltar pro segundo tempo retrancada”, “o negócio é fazer mais um, porque o juizão já amarelou três sem motivo”, “Ferdinando está dando muita sarrafada”, “esse goiano ainda vai complicar nossa vida, tem que tomar cuidado”. Eram as conversas de intervalo entre os escaldados lusitanos nas arquibancadas do Maracanã.

Sábio como o torcedor da Lusa, pouco amante de futebol é. O que se viu na segunda etapa foi um misto das expectativas. A Rubro-Verde voltou recuada, chamando o Fluminense para a virada. Perder Diogo foi uma sacanagem. Colocar Bérgson foi falta de opção. Tirar Bruno Henrique foi uma mudança que poderia ter ocorrido no intervalo. Colocar Bruninho foi inflar o time de volantes. Tirar Wanderson foi carta mais que marcada. Colocar Corrêa foi uma tacada de risco. Unidos os erros de postura e de mudança à péssima arbitragem (que já virou regra e que começa a desmotivar até críticas), não poderia haver resultado mais previsível que a virada tricolor: 2 a 1 para o Fluminense.

Os guerreiros lusitanos que abdicaram de seu fim de semana para ver a Portuguesa no Maracanã saíram frustrados, porém, não muito revoltados. Quem roda quilômetros atrás do time sabe que o resultado do jogo não pode ser o fator de maior peso. A torcida, assim como Guto Ferreira, tem noção de que o ponto fora da curva seria vencer o Fluminense lá. Sabem que não virão vitórias em todos os jogos e que o time tem limitações. Porém, ambos também sabem que o time teve medo, jogou retrancado, ficou temeroso e poderia sim ter vencido. Teve medo de quê? Do estádio? Da torcida? Do adversário? Nada disso inspirava medo algum. Na saída do Maracanã, uma certeza: a Portuguesa tem de parar de ser uma dentro do Canindé e outra totalmente diferente fora dele.

A coragem dos lusitanos que foram ao Rio de Janeiro destoou do medo dos jogadores em campo no Maracanã. Porém, como sempre no futebol e na Lusa, é vida que segue. Sobre aqueles quatro lusitanos, tal qual tem que ser com o time, aprenderam com seus erros. Voltaram a São Paulo com história para contar, sem sustos e algumas certezas: não trocam nenhum bolinho de bacalhau pelo cheeseburguer do Bob’s, não abrem mão de um belo tremoço por um saco de Ruffles, não deixam de lado a velha “bunda no concreto” por nenhum conforto de cadeira numerada. O novo Maracanã é maravilhoso. Pro Canindé ainda falta muita coisa… mas um dia os cariocas chegam lá! Que venha o Náutico!

E você, torcedor lusitano? O que achou do resultado e da arbitragem? Dê sua opinião! Comente abaixo!

Por Luiz Nascimento

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12 comentários

  1. André Fontan disse:

    Publicação muito boa de se ler; pensei até em ir ao Maracanã, apenas para ver esse jogo, mas acabei ficando em São Paulo.

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  2. Diego Moura disse:

    Cara, texto primoroso. Sem mais.

    O senhor sabe do meu [não] gosto por futebol. Lii até a última linha. Jornada digna de Camões! hahaha

    Fotos belíssimas.

    Um abraço

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  3. José Mauro Delella disse:

    Luiz, o Guto melhorou mesmo o time um pouco e conseguiu bons resultados no Caninde, mas ainda acho que ele precisa mostrar muita coisa pra ser realmente merecedor de elogios. Fora de casa o time dele é sempre medroso em exagero, mesmo na frente no placar não consegue minimamente controlar o jogo. Time com defesa e goleiro fracos como o nosso, se joga só na defesa está pedindo pra perder. Além disso, tem que lembrar:o Guto chegou e pediu o Bergson, o Wanderson e o Carlos Alberto – TODOS jogadores fracos, exatamente do nível dos que já estavam lá. Só servem pra aumentar a folha salarial. Sem ganhar nenhmua fora de casa é impossível não ser rebaixado. Agora temos o Nautico e depois, 3 derrotas provaveis (especialmente pela venda do mando). Tá ficando difícil demais.

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  4. eduardo elias disse:

    Como vc disse ai eu tbm abdiquei do sábado com minha esposa para ir junto com a Leões ver a minha Amante Lusa , Lugar e atendimento no Maracanã de 1º mundo parecendo que ali é sem duvida um oásis em pleno território de palafitas , como o povo Brasileiro é iludido por luzes e clamor de autoridades que sempre buscam as vantagens do País do Futebol , a e quanto o jogo a querida Lusa patinou mais uma vez fora de casa , mas o Presidente continua como dantes em pleno quartel de Abrantes ou seja em busca de mais um titulo rumo a serie b ,,, pois até os nossos minguados mandos ele faz questão de vender como um mercante , não importando mais em nada pois o torcedor Luso Para ele é um mero detalhe!!!!!!

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  5. rodrigo disse:

    Luiz, só acho que desta vez o juiz não influenciou em nada. Vi o jogo pela TV, ou seja, tinha o benefício do replay. E ele não errou em nenhum lance capital. Talvez um Penalti para a Lusa em cima do Bergson, porém discutível. Eu não daria ! Os cartões foram todos bem dados. Infelizmente nosso time bate demais.
    Lamentavelmente faltou coragem de atacar e por isso perdemos. O problema é que só temos onze titulares (e olhe lá). Sábado, Diogo estava estabanado e ja amarelado. Por isso saiu.
    Luis Ricardo, bem marcado, não é nem sombra daquele que só foi craque em uma tal de série A2 !
    Fora isso, não foi um bom dia de vários jogadores, o que é normal. MAs sabe quando isso ocorre justo no dia que não pode ocorrer ? Era confronto direto, a chance de sair do Z4, jogo fora (e sem ganhar nenhum fora não vamos escapar).
    Agora passou. Preocupação mesmo é o próximo jogo. Tenho medo do clima de ja ganhou pra cima do rebaixado Nautico. Se os jogadores pensarem assim, pode ter certeza que vamos perder. Isso faz parte de nossa história, tropeçarmos nestes jogos. Precisamos de uma campanha para concientizar os jogadores a respeitarem o Nautico.
    Lembra em 2010 quando vínhamos de 3 vitórias seguidas, pronto para entrar no G4, pegamos o lanterna América de Natal, em casa, time que estava rebaixado igual o Nautico. Saímos na frente……e no fim, derrota por dois a um. E deixamos de subir por um ponto.

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    Luiz Nascimento Reply:

    @rodrigo, É, Rodrigo, foi exatamente o que pensei. Justo no dia em que o time não poderia perder nenhuma chance de arrancar uma vitória, os jogadores de um modo geral não estão bem. A zaga voltou a bater cabeça (mais que o já habitual), os volantes não conseguiam acompanhar as jogadas (Ferdinando não vem bem há tempos e Bruno Henrique nem parecia o mesmo), Souza fazia falta ao meio e no ataque, aquela falta de calma, inteligência e pontaria.

    O que me deixou nervoso mesmo foi a postura do time. Medo demais. E medo do quê? Não havia o que temer. Nada justifica ficar tão retraída, tão retrancada, chamando o Fluminense pra virada. Um dos desafios do Guto ainda é fazer com que o time pelo menos tente jogar fora de casa com postura semelhante à do Canindé. E partilho de sua preocupação. Náutico não será mole, pelo contrário, parada dura. É preciso concentração, foco e inteligência. É um jogo-chave, porque a sequência a partir da próxima semana é terrível, ainda mais com o jogo vendido.

    Quinta é vencer ou vencer, porque para um time que deu tanta sopa para o azar, até que de um modo geral os resultados não foram ruins. Porém, temos de nos preparar é para as rodadas seguintes. Paradas indigestas.

    Saudações Lusitanas,
    Abraço!

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  6. Luiz Nascimento disse:

    Obrigado por prestigiar o blog, André! Decidimos bem de última hora, mas valeu a pena. Sempre vale pela experiência e, no meu caso, pela primeira vez no Maracanã. Saudações Lusitanas! Abraço!

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  7. Luiz Nascimento disse:

    Olha… Do jeito que você gosta de futebol… Pra ter lido inteiro… Realmente… Hahahahaha Valeu, rapaz! Obrigado mesmo! Um bate-volta no RJ que valeu e muito a pena. É bão pra ter história pra contar… Hahahahaha Abração!

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  8. Luiz Nascimento disse:

    É, José Mauro, principalmente com relação aos reforços que ele indicou e aos desempenhos fora de casa, concordo. Quanto às indicações, como ele mesmo admitiu em entrevista, não são top's de linha, até pelas escassas opções de mercado a essa altura do campeonato. Creio que foi muito mais nos homens de confiança que custam pouco do que pelo primor técnico em si. Porém, é preciso ver até que ponto isso é viável. Ainda não entendo a situação do Magal, por exemplo. Sobre os jogos fora, realmente é algo bem complicado. A postura do time é outra, completamente diferente daquela mostrada no Canindé. Contra o Fluminense acho que tivemos a maior prova. O medo de perder era evidente. O time se mostrou medroso, muito recuado, retrancado demais. A Lusa perdeu para si própria, tropeçou nas próprias pernas. Precisamos de no mínimo 7 vitórias e alguns empates para não cair. Se vencermos todas no Canindé, nos salvamos. Mas sabemos que isso é impossível. É preciso vencer fora. E esse me parece um problema crônico. Até mesmo com o Geninho tínhamos esse problema. A postura tem que mudar. Sem medo, sem receio, se impondo. Só assim conseguiremos o necessário pra não cair.

    Obrigado por acompanhar o blog!
    Saudações Lusitanas,
    Abraço!

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  9. EVERSON disse:

    Pessoal, gostei muito do site e da matéria de vocês! Podem acreditar, estive vendo a Lusa no final da década de 90 no Maraca contra o Flamengo, quando tínhamos Rodrigo Fabri jogando, e apesar de termos perdido por 1×0, demos um suor no Flamengo. Também aquela época levávamos muito mais torcedores aos estádios, inclusive em jogos fora de casa.

    Parabéns! Vocês são uns heróis!

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  10. Joao Alexandre Alves de Freitas disse:

    a meu ver o time precisa demais do Souza e do Diogo, com os 2 o time incorpa e encara, mas faltou um e perdemos o outro e ai complica muito, e o pior é que essa nossa diretoria de 3 mandatos até hoje não sabe como funciona a coisa toda fora de campo, e ai é só levar porrada da juizada.

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  11. chris antonio porto de siqueira vieira disse:

    Eu tbm fui ao Maracanã com minha esposa ver a Lusa….o estádio está bem bonito…mas infelizmente perdemos. Mas depois veio 2 alegrias contra Nautico (tbm fui) e Inter. Vai Lusa!!!

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