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Futebol no Brasil: modernizar a gestão, mas preservando o nosso DNA

por
10/10/14

 Depois dos 7 a 1, futebol brasileiro não deve buscar se recatequizar
ouvindo somente os sons das flautas do Velho Mundo

Por Ricardo Flaitt (Alemão)

Neste mundo pós-moderno, de informações quase que instantâneas, centenas de plataformas tecnológicas, mensagens de 140 caracteres, redes sociais, tudo parece tão evoluído, no entanto, também tudo parece cada vez mais tão igual, imediatista e tão insosso.

O futebol, reflexo e extensão da vida, também vem sofrendo com essa nova fase “moderninha” e politicamente corretinha,  em que se arvora a sociedade.

A velocidade virtual e a pasteurização parecem vencer, no momento, a partida sobre a realidade e o sentimento do mundo e da bola.

Em tempos de escolinhas da bola, eterno país do futuro, Copa do Mundo, Olimpíadas e jogadores de condomínio, parece haver mais da realidade do futebol nas tramas das novelas das nove do que nos folhetins da bola, que se escrevem à cada partida.

A verdade é que o Futebol, por mais que se tentem criá-lo no mingau (ou no sucrilhos, como diria Criolo), sempre possuirá uma certa canalhice em seus toques.

Seja na provocação entre os jogadores dentro de campo, no sarro entre os amigos do trabalho, nos erros da arbitragem, na bola que caprichosamente bate na trave, no gol perdido pelo atacante na linha do gol, no xingamento ao árbitro, nos impropérios aos bandeirinhas, ou nos apelidos pejorativos incitando o clube rival…

Evidente que, quanto à gestão, os clubes do Brasil precisam se internacionalizar. Mas, repito, somente quanto à gestão, porque no futebol, não se pode perder a nossa nobre e original deselegância formada pelos dribles e pelas pernas tortas de um Garrincha.

A verdade, do Brasil, do futebol e dos brasileiros, é desproporcional, como as medidas das pernas de Mané. Nossa realidade é de fato criativa, espontânea e manca. Sempre se improvisando diante de nossas ausências estruturais, em sentido amplo, do povo à nação, do nosso sentimento particular ao que possuímos de universal.

Muito se fala, armados com pranchetas eletrônicas, estatísticas,  calculadoras, telas de touchscreen, softwares sobre futebol, das “novas” composições táticas e de outros penduricalhos tecnológicos. Até importantes, mas não essenciais.

Mas sempre quando me deparo com um Muricy – que é um prático e sem frescura no futebol – dizendo que dá liberdade para o quarteto do São Paulo se movimentar em campo, porque craque não precisa de muita teoria, não é também (nas devidas proporções quanto aos talentos dos jogadores), o que João Saldanha passava como orientação para Pelé, Rivelino, Gerson e Tostão?

“Campo de futebol não é loteamento. Ninguém é dono de lote, de posição fixa.” – João Saldanha, técnico brasileiro nas eliminatórias para a Copa de 70, que defendia a liberdade dos craques dentro de campo.

Considerando o saber jogar, para o craque, basta ser. É preciso ter a compreensão de “que o samba não é rumba”, assim como cantado na música “Chiclete com Banana”, de Gilberto Gil.

O que pode ter mudado é a necessidade imensa de condicionamento físico, o que justificam os chips de GPS nos calções.

No entanto, chega a ser algoz ouvir uma declaração de Guardiola, sobre o fantástico Barcelona, afirmando que se inspirou no futebol brasileiro de outros tempos, que privilegiava o toque de bola, assim como seu pai lhe contara. E o que se viu na Seleção Alemã, e no Barcelona, a exemplos, não foram os domínios sobre os passes e a posse de bola, o bom futebol, que encanta aos olhos?

Confira a matéria da Folha de SP, onde Guardiola se refere ao estilo brasileiro na formação de sua concepção de futebol: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2011/12/1023086-apos-show-do-barca-guardiola-cita-antigo-estilo-brasileiro.shtml

As discussões, ainda mais depois sobre a tragédia do Mineirão, com 7 a 1 nas costas da nação, parecem agora fazer pairar um pensamento de que temos que nos organizarmos taticamente como a Alemanha e outros europeus.

Porém, oito minutos de surrealismo no Mineirão, durante a Copa, não podem fazer com que se invertam os ponteiros dos minutos de nossa história no futebol. Não se pode colocar os segundos no chão e ficar tentando reconstruir um relógio brasileiro com peças importadas do Velho Mundo.

Quanto à importante modernização da gestão, também propuseram novos centros de treinamento, edificações do futebol desde a base, mas todos esses pensamentos, essas teorias pós-tragédia parecem como experimentos científicos em laboratório, com macacos tentando colocar o círculo no espaço de um retângulo, porque se passou a analisar o futebol brasileiro, desconsiderando e descontextualizando de nossa realidade.

E convenhamos, o Brasil, enquanto nação está muito aquém da Alemanha. É fato que há de se modernizar a gestão, em contrapartida, quando o assunto é bola, não podemos perder nunca a nossa picardia, o que há de melhor em nosso DNA da bola.

Não é o momento de nos catequizarmos tocando as flautas dos europeus. É preciso se modernizar, respeitando os acordes do samba e da bossa nova.

O mundo “civilizado” nos deu gênios como Da Vinci, Michelangelo, Fellini, Platão, dentre tantos; mas também nos deu o futebol, que nasceu na Inglaterra, e que antropofagicamente foi absorvido e de certa forma reinventado tabelando com as características do nosso povo.

Em nossa identidade nacional, originalmente assimilada, dentro e fora dos campos, nosso povo ostenta para o mundo a sua cultura da bola, por meio de sua anti-teoria, de sua anti-prancheta eletrônica, escrevendo nossa história pelas pernas de craques como Garrincha, Pelé, Canhoteiro, Leônidas, Friedenreich, Rivelino, Zico, Sócrates, Ademir da Guia, Falcão, Neymar, dentre tantos outros gênios, que encantaram, e ainda encantam, o mundo de lá!

A gestão do futebol brasileiro precisa se modernizar, mas isso não significa perdermos o que há de melhor em nosso DNA, formado por dribles que entortam qualquer esquema tático.

RICARDO FLAITT (Alemão) cursa o último ano de História, autor do livro “O Domesticador de Silêncios”; mas, sobretudo, é um cronista-torcedor apaixonado pelo São Paulo| E-mail: flaitt.ricardo@gmail.com | Facebook/rflaitt | twitter.com/flaittt

*** Foto do Projeto Já fui Floresta: http://www.olhardireto.com.br/conceito/noticias/exibir.asp?noticia=Jose_Medeiros_aprendeu_com_os_indios_e_agora_quer_retribuir_tornando-os_profissionais_da_fotografia&id=117

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2 comentários

  1. Lucas Rangel disse:

    Aos Treinadores que Reflitam sobre o nosso FUTEBOL !

    [Reply]

  2. Gabriel Mokfa disse:

    Eu penso que tem que mudar tudo e recomeçar do ZERO. As dinâmicas de jogo das equipes brasileiras são muito lentas, as equipes vivem com bolas rifadas sem sair jogando com qualidade, muito diferente das equipes europeias que tem uma dinâmica de jogo muito rápida e erram poucos passes. O pior de todos é quando as equipes brasileiras perdem a posse de bola. O cara que perdeu a bola corre que nem um louco atrás dela, principalmente se toma vaia, o que deixa claro que ele quer roubar a bola pra torcida apoia-lo e parar de vaiar, enquanto que lá fora é tudo muito organizado. Todo mundo se organiza pra marcar, cercar e dar o bote. As grandes equipes fazem pressão, mas é tudo muito bem treinado (aí entra a parte da péssima organização, onde se tem jogo quarta e domingo e as equipes não tem grande tempo pra treinar ) e é feito tudo com perfeição e aqui se faz uma pressão enganosa, onde alguns time até sufocam e obrigam o adversário a dar chutão, mas deixam muitos espaços lá trás. Além disso, no Brasil os técnicos não gostam de serem questionados e de sofrerem críticas. Se falam que ele errou, ele já altera a voz e algumas vezes até xinga o jornalista (não foram poucas as vezes que vi o Felipão, Muricy e Luxemburgo discutindo com os jornalistas na sala de imprensa), enquanto que lá fora o técnico escuta o clamor da imprensa e muda algumas peças (o técnico da Alemanha fez isso na Copa. Viu que não deu certo Lahm de volante e após sofrer críticas dos jornalistas ele passou a escala-lo na sua posição de origem), o que mostra diferença até mesmo na personalidade deles em comparação com a nossa. Ainda temos aqui o ultrapassado conceito de que é preciso repetir escalação, enquanto que nos principais times europeu os técnicos vivem fazendo revezamento e rodando o time. Outra coisa sobre os técnicos daqui é que eles tem somente um esquema. Isso mudou a muito tempo. Na Europa se joga com um esquema pra atacar e outro pra defender e aqui o técnico não faz nenhum jogador ter outras funções em campo. Por exemplo, aqui ainda se tem a ideia de que volante tem que ficar só pra marcar e meia-armador tem que ficar somente na armação. Isso mudou a muito tempo e é uma ideia de jogo ultrapassada. Os meias de lá armam e marcam ao mesmo tempo. Vou citar somente a Alemanha, que tem, Kroos, Schweinsteiger, Khedira e Gundongan. Todos eles sabem o que fazem com e também sem a bola e aqui se produzem um meia somente pra armar e um volante defensor só pra defender, ou seja, o meio campista completo não tem sido produzido no Brasil. É bom que se tenha um 10 clássico e isso nunca deve ser parado de ser produzido, mas nem isso o Brasil produziu mais. :Tem produzido somente velocistas e caras que querem driblar…

    [Reply]

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