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Um domingo qualquer, infelizmente

por
9/12/13

Domingo, 8 de dezembro de 2013
O dia começa tranquilo e da varanda do apartamento é possível acompanhar, mesmo de longe, a festa do Morro da Conceição, uma das maiores festividades religiosas da cidade. Pessoas vem de todos os lugares pagar suas promessas e agradecer as graças alcançadas.

O dia continua tranquilo e a família se junta na sala para montar a árvore de natal, conversar e aproveitar o dia. Mas, cometemos um grave erro: deixamos a televisão ligada. Não sei o por quê, nem para quê, tendo em vista que o foi transmitido por aquele aparelho estragou a nossa tarde / noite.

Quando começou a transmissão do jogo CAP x Vasco disse logo: “Eita, vamos ver a queda do Vascão!”. Continuei a armar a árvore de natal, parei para ver o gol do Paulo Baier e depois só escuto um: “eita, olha a briga!”.

Me viro e me deparo com imagens toscas, pitorescas, desnecessárias e que me fazem pensar se vale a pena gastar meu tempo acompanhando futebol. Assisti a um quase assassinato transmitido ao vivo em rede nacional. Uma cabeça de uma pessoa desacordada sendo pisoteada repetidamente, sem dó, nem do ser humano estendido no chão (o mérito de estar lá para brigar ou ver jogo discuto mais embaixo) nem de pessoas como eu , que apenas estavam com a TV ligada em uma tarde de um domingo qualquer.

Presidentes de Clubes não ajudam a acabar com organizadas (foto: twitter Cássio Zirpoli)

Minha primeira sensação foi de mal estar. Já vi várias vezes cenas como essa. Inclusive acompanhei a série The real football factories na ESPN. Não foi a primeira vez que vi coisas desse tipo. Frequento estádio de futebol desde criança e não foram raras as vezes que vi na Ilha, no Arruda e nos Aflitos coisas desse tipo.

Mas ontem parece que foi algo diferente; a brutalidade e a raiva gratuita demonstraram o que há de pior no ser humano (se é que se pode chamar esse pessoal assim). Verdadeiros animais irracionais em uma estúpida briga campal sem nenhuma razão de começar, sem nenhum motivo. Ou seja, é bater, por bater; simplesmente para machucar o outro. EU não entendo a razão disso, mas sei que nada, absolutamente nada será feito para mudar o quadro.

Os quatro que foram para o hospital e estão sendo tratados como coitados por muita gente estavam lá para matar ou morrer e quase “conseguiram” o último objetivo. Não são inocentes; se quisessem correriam para o lado contrário ao da confusão, principalmente os torcedores do CAP, que estavam muito mais distante da sua torcida que a do Vasco, espremida atrás de um dos gols.

Lamento a derrota do ser humano para a barbárie animal que se instalou nas arquibancadas dos estádios brasileiros. Desde a Copa SP de Futebol Jr, no longínquo ano de 1995, quando um torcedor morreu, muita coisa poderia ter mudado, mas as torcidas envolvidas diretamente na questão (Mancha Verde e Independente) continuam a existir da forma como sempre o fizeram. Estamos em 2013 e a “inteligência” do Estado não foi capaz de evitar uma briga marcada através de uma rede social.

Lamento que em um domingo qualquer, o torcedor de verdade que vai para ver uma partida de futebol e torcer pelo seu time não pode mais desfrutar desse prazer. A minha paixão pelo esporte vem do meu pai me levar as arquibancadas, de ouvir a charanga, ver bandeiras tremulando e o time jogando. Íamos a pé e hoje vou de carro e com receio. Não se levarei meus filhos (que nem tenho ainda) para um estádio. Não quero passar pelo que um torcedor do Vasco passou ontem. Hoje não levo crianças ao campo, nem aconselho ninguém a fazê-lo.

Lamento que nossa realidade seja a de ontem e por mais fotos que se publiquem do cara com a barra de ferro dando porrada em um desacordado membro da “organizada” rival, o cidadão, será solto em breve. Essa prisão é mais uma demagogia barata das nossas autoridades; as mesmas que pintaram os corintianos presos na Bolívia em coitados e que se envolveram em uma grande briga no estádio Mané Garrincha em Brasília.

Lamento ver algo tão maravilhosamente apaixonante como futebol se perder por conta de uma meia dúzia. Esses membros de “organizadas” não podem JAMAIS ser chamados de torcedores. São bandidos, isso sim! Bandidos, que formam quadrilhas e que usam times de futebol como fachada para praticar atos de violência extrema. Não são muito diferentes de políticos corruptos ou dos traficantes de drogas; cada um com seu mercado e a seu modo é bandido.

Meu coração de torcedor é otimista e me pede para acreditar que as coisas vão mudar, mas minha racionalidade fria me mostra fatos que me mandam para o lado contrário. Espero que meu coração esteja certo, porque senão, ao invés de, como disse Neguinho da Beija-Flor, irmos ao Maracanã torcer pelo time que somos fãs, vamos ver tudo trancados em nossas casas cheias de grade, assistindo pelo pay per view, em nome de nossa integridade física.

Espero que o campeonato brasileiro se torne um dia o campeonato do torcedor brasileiro e que os vândalos assistam tudo da prisão, porque lugar de bandido é na cadeia e não nas arquibancadas.

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10 comentários

  1. Pedro disse:

    É muita gente financiando esses marginais e quase ninguém combatendo. A globo, que faz o alarde agora, em pouco tempo fará matérias apológicas à esses bandidos. Inclusive, a emissora já veiculou uma matéria onde mostra um integrante da torcida organizada do Atlético Paranaense “protegendo” um pai e seu filho. A mesma globo que enaltece a gaviões da fiel e coloca microfones próximos a torcida. Fora isso, a conivência dos clubes, dando dinheiro para a viagens e ingressos. Um Estado omisso, que não tem interesse em punir esses marginais.
    Agora, tudo isso tem cheiro de armação, de volta ao passado, de virada de mesa. Na minha opinião, foi tudo orquestrado. É preciso uma investigação aprofundada, que envolva não só os pseudo-torcedores, mas todos os dirigentes do Vasco.

    [Reply]

    José Henrique Reply:

    @Pedro,
    Pedro,

    Depois da notícia que vi ontem, de que o Vasco vai tentar no tapetão a virada de mesa, me parece que, mais uma vez, a “malandragem” entrou em campo para salvar um time carioca.

    E eu que pensei que o Dinamite era um cara sério, pelo menos mais sério que o Eurico.

    Abs

    [Reply]

  2. Fabio Fernandes disse:

    Olá, José Henrique!
    Pela frente parecem ser alegres, parecem embelezar o espetáculo. Mas, por detrás, são mares negros, onde bandidos uniformizados ecoam seus gritos de “ordem”. assuntodofutebol.com.br

    [Reply]

    José Henrique Reply:

    @Fabio Fernandes,

    Olá Fábio Fernandes!
    Mas essa beleza disfarçada é melhor que não exista. Se for para ser desse jeito, que se acabem todas e que verdadeiro torcedor ocupe as arquibancadas.

    De lobo em pele de cordeiro bastam nossos políticos corruptos.

    Parabéns pelo Blog!
    Abs

    [Reply]

  3. Bruna Mariana disse:

    Belo texto meu amigo, foi um domingo lamentável. Ainda estou digerindo tudo que aconteceu.

    Um abraço!

    [Reply]

    José Henrique Reply:

    @Bruna Mariana,

    Oi Bruninha!

    Quem perdeu domingo não foi o Vasco, mas o futebol brasileiro, a cidadania e o valor que damos ao próximo.

    Quem cai é para se levantar. O Vasco é grande e voltará a se reerguer. Espero que sem esse vírus chamado Dinamite.

    Abs

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  4. Ed Oliveira disse:

    Infelizmente eles nem se importam que as torcidas se matem, deveriam fazer uma campanha para acabar com a violência entre as torcidas!

    [Reply]

  5. José Henrique Mota disse:

    Concordo com você Ed. Pouco estão ligando para essa violência entre torcidas e nós, verdadeiros torcedores, pagamos o pato.

    [Reply]

  6. Leões Do Cerrado Brasilia disse:

    Uma verdadeira chacina. Mas acontece em todos os estádios, do lado de fora. Agora foi do lado de dentro.

    [Reply]

    José Henrique Reply:

    @Leões Do Cerrado Brasilia,
    De fato, mas se quando deixarmos de nos chocar com esse tipo de coisa estaremos perdidos. Vai virar rotina como ir comprar pão.

    Abs

    [Reply]

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